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água e clima
Secas
Redução acentuada e prolongada das chuvas.
PRINCIPAIS IMPACTOS
Abastecimento humano comprometido
Prejuízos agrícolas
Redução na geração hidrelétrica
Perda de biodiversidade
Cheias
Elevação dos rios acima da média habitual.
Principais impactos
Desabrigados e desalojados
Danos à infraestrutura
Prejuízos econômicos
Riscos à vida humana
Crises Hídricas
Resultam de secas ou cheias, combinadas com fatores antrópicos, como o uso intensivo da água, mudança do clima, uso do solo e outras pressões humanas.
Conflitos de uso
Riscos à segurança hídrica
Aumento de custos
Mudança do Clima
Com o aquecimento global, aumenta a incerteza sobre a água.
Projeções indicam
Secas mais prolongadas
e frequentes no Nordeste, Norte e Centro-Oeste
‍

Cheias mais intensas e frequentes no Sul e Sudeste
Impactos crescentes
energia
agricultura
abastecimento
populações vulneráveis
Ferramentas de
Monitoramento
e Gestão Adaptativa
Monitor de Secas
acompanha a
evolução da seca
com mapas mensais
Planos de Contingência
estratégias emergenciais
para reservatórios
Salas de Situação
monitoramento
em tempo real
Salas de Crise
articulação entre
órgãos e usuários
durante emergências

Água e clima

A relação entre água e clima é central para a compreensão dos desafios contemporâneos da gestão dos recursos hídricos no Brasil. O ciclo hidrológico está profundamente interligado aos padrões climáticos, e a mudança do clima tem intensificado a frequência e a severidade dos eventos hidrológicos extremos, como secas prolongadas e inundações. Esses fenômenos impõem pressões adicionais sobre os sistemas naturais e antrópicos, comprometendo o abastecimento de água, a produção agrícola, a segurança energética e a resiliência das populações mais vulneráveis.

Nos últimos anos, esforços foram realizados no sentido de compreender os impactos da mudança do clima sobre os recursos hídricos, identificando vulnerabilidades e, quando possível, indicando medidas e ações necessárias para promover resiliência e adaptação. Preparar-se para um clima em transformação exige ir além da reação a crises, incorporando práticas de mitigação de impactos e adaptação à gestão de recursos hídricos. Nesse contexto, o monitoramento contínuo, o aperfeiçoamento de ferramentas que possibilitem a obtenção, a previsão e a disseminação de informações confiáveis ganham papel estratégico, pois permitem respostas mais rápidas e planejadas diante de situações críticas.

Enfrentar os desafios impostos pela mudança do clima requer uma abordagem preventiva e integrada, que considere as dimensões hidrológica, climática, social e econômica de forma conjunta. Isso implica fortalecer a articulação entre os diversos atores do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH), promovendo a cooperação entre órgãos gestores, setores usuários e comunidades. Além disso, a gestão deve ser flexível o suficiente para incorporar novas evidências científicas, lidar com incertezas e adaptar-se a mudanças rápidas.

Entre os impactos esperados (e já observados) da mudança do clima estão o aumento da frequência e a intensificação de secas e cheias. Assim, compreender como secas e inundações se manifestam nas diferentes regiões brasileiras não é apenas uma questão de registro histórico ou de análise estatística: trata-se de reconhecer padrões, causas e consequências para, a partir disso, orientar decisões que minimizem perdas humanas, ambientais e econômicas.

Secas

A seca é um fenômeno natural caracterizado pela redução acentuada e prolongada das precipitações em uma região, resultando em déficit hídrico em relação às necessidades normais para o abastecimento humano, a produção agrícola, a manutenção dos ecossistemas e outros usos da água. Seus efeitos não dependem apenas da falta de chuva, mas também da intensidade, duração e distribuição das precipitações, bem como da capacidade do solo e dos sistemas de armazenamento de reter água.

Nos últimos anos, o Brasil enfrentou secas severas que afetaram diferentes regiões do país, com impactos significativos sobre os usos da água e ecossistemas. Entre 2014 e 2016, a seca que atingiu a Região Sudeste impactou fortemente o Sistema Cantareira, comprometendo o abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo. Além disso, devido ao baixo volume nos reservatórios, entre eles os do Rio Paraíba do Sul, houve redução na geração hidrelétrica, com necessidade de acionamento de usinas termelétricas, o que elevou o custo da energia no país.

Entre 2012 e 2018, a Região Nordeste enfrentou uma das secas mais severas e prolongadas de sua história, com efeitos especialmente intensos no Semiárido. Muitos reservatórios e açudes secaram ou atingiram níveis críticos, colocando em risco o abastecimento humano e as atividades econômicas da região. Como resposta, foram intensificadas ações emergenciais, como a Operação Carro-Pipa, além da implementação de medidas de uso racional da água e novas regras de operação para reservatórios e sistemas hídricos, com o objetivo de aumentar a segurança hídrica, preservando armazenamentos estratégicos.

Na Região Centro-Oeste, destacam-se os eventos de seca que atingiram a Região Hidrográfica do Paraguai entre 2020 e 2024. A redução do nível dos rios, como consequência da seca nessa região, impactou o abastecimento de água e a navegação. Além disso, foram registrados números recordes de focos de calor, resultando em grandes incêndios e perda de biodiversidade.

No período de 2020 a 2023, a Região Sul também sofreu com secas recorrentes e intensas, com impactos principalmente para a agricultura e para o abastecimento urbano. Cidades dos três estados adotaram regime de restrições ou rodízio no fornecimento de água. Na Região Metropolitana de Curitiba, por exemplo, o racionamento foi mantido por cerca de 2 anos (de 2020 a 2022).

A Região Norte enfrentou em 2023 uma de suas piores secas, com consequências para os níveis dos rios, entre eles o Negro e o Solimões, que registraram níveis mínimos históricos. Os rios nessa região são, para muitas localidades, o principal, ou o único, meio de transporte. Com a seca, a navegabilidade ficou comprometida, prejudicando ou impossibilitando o transporte de pessoas, alimentos, medicamentos e combustíveis.

Registros de Secas

Eventos extremos relacionados à distribuição das chuvas (secas e cheias) têm se tornado cada vez mais recorrentes no país. Alterações na sua frequência e intensidade podem ser indícios de mudança climática e de alterações nos padrões da precipitação.

Para as estatísticas de secas apresentadas neste Relatório, foram utilizados os dados mais recentes do Atlas Digital de Desastres do Brasil, elaborado pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC) do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional - MIDR. O Atlas tem como principal objetivo fornecer informações sistematizadas relacionadas às ocorrências de desastres e aos danos e prejuízos decorrentes, oficializando, assim, dados históricos consolidados sobre desastres no país, com registros desde 1991. 

Neste Relatório, os eventos classificados como “Secas” correspondem à tipologia “Estiagem e Seca”, integrante do grupo de desastre “Climatológico” constante no Atlas. As análises consideraram todas as ocorrências registradas de desastres, e não apenas aquelas com reconhecimento pela SEDEC.

De 2015 a 2024, foram quantificados 13.144 eventos de secas associados a danos humanos, totalizando mais de 108 milhões de pessoas afetadas por secas e estiagens no Brasil. Somente em 2024, foram contabilizados 1.279 eventos e mais de 10 milhões de pessoas afetadas. Em termos de danos humanos, 2017 foi o ano mais crítico entre 2015 e 2024, com aproximadamente 19 milhões de pessoas afetadas, o que representa cerca de 9 milhões de pessoas afetadas a mais que a média do período. 

Observa-se o aumento da frequência de ocorrência de secas na Região Sul, no período de 2020 a 2023, e na Região Norte, especialmente a partir de 2023. Esse comportamento evidencia que, embora o Nordeste continue sendo a área mais atingida, as secas têm se manifestado de forma significativa em outras partes do território nacional. 

Em 2024, a maior parte dos eventos de secas ocorreu na Região Nordeste (48,7%), seguida pelas regiões Norte (28,9%) e Sudeste (15,6%). A Região Sul apresentou, em 2024, o menor número de eventos de secas dos últimos cinco anos, com apenas 29 registros — uma queda expressiva em relação aos 376 eventos registrados, em 2023, e aos 504, em 2022. Em contrapartida, a Região Norte registrou um aumento significativo: o número de eventos passou de 5, em 2021, para 370, em 2024.

Quanto ao número de pessoas afetadas por secas em 2024, 48,3% vivem na Região Nordeste, seguida por 26,5% na Região Norte e 22,2% na Região Sudeste. Considerando o período de 2015 a 2024, 73,7% da população afetada por secas está na Região Nordeste.

Operação Carro-Pipa

Em situações de secas em que não há alternativa de manancial para abastecimento público, muitos municípios recorrem ao abastecimento emergencial por carros-pipa. A Operação Carro-Pipa (OCP) foi instituída pela Portaria Interministerial nº 1/MI/MD, de 25 de julho de 2012, tendo como objetivo a realização de ações complementares de apoio às atividades de distribuição de água potável às populações atingidas por estiagem e seca na região do Semiárido Nordestino e região norte dos estados de Minas Gerais e do Espírito Santo.

A operação é gerida pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (Sedec/MIDR) e pelo Ministério da Defesa (MD) e, embora tenha um caráter emergencial, observa-se que sua atuação acontece de maneira continuada, tendo abastecido 47% dos municípios beneficiados pela operação durante mais de 80% do tempo no período de 2012 e 2022, segundo o Relatório de Avaliação do ciclo 2023. Essa continuidade no atendimento ocorre principalmente devido à ausência de soluções estruturantes de acesso à água nas localidades atendidas, tais como a implantação de cisternas ou poços individuais ou mesmo o transporte não-emergencial por meio de carros-pipas.

Em 2024, a Operação Carro-Pipa atendeu, em média, 370 municípios por mês, beneficiando cerca de 1,42 milhão de habitantes por mês.

Monitor de Secas

O Monitor de Secas é um programa de abrangência nacional de acompanhamento regular e periódico da situação da seca, cujos resultados são divulgados por meio de mapas mensais nos quais se observam o surgimento, o desaparecimento, a evolução ou a regressão do fenômeno da seca nos estados e no Distrito Federal. É utilizado como suporte às ações e políticas públicas de gestão de riscos de secas, potencializando a articulação entre estados e União e o mapeamento dos impactos de forma regionalizada, o que permite ainda a identificação de vulnerabilidades, a elaboração de planos de secas, o planejamento e a gestão de infraestrutura e a antecipação de medidas de respostas.

O Monitor de Secas iniciou suas atividades em 2014 pela Região Nordeste. Em 2018, começou a ser expandido para as outras regiões, processo que foi finalizado em janeiro de 2024, quando todas as Unidades da Federação foram incluídas no monitoramento.

Para representar a intensidade e os impactos da seca, o Monitor utiliza uma classificação padronizada em cinco faixas de severidade que refletem os níveis de intensidade e de efeitos da seca. Essas faixas são: seca fraca (S0), moderada (S1), grave (S2), extrema (S3) e excepcional (S4), indicando uma classificação crescente da intensidade da seca. As secas fracas (S0) e moderadas (S1) possuem, estatisticamente, um tempo de retorno menor, sendo, portanto, mais frequentes. Por outro lado, as demais categorias (S2, S3 e S4) enquadram-se como eventos mais “raros”, com tempos de retorno superiores a 10 anos.

Analisando os mapas do Monitor ao longo dos anos, é possível verificar o comportamento do fenômeno da seca nas regiões do país. De 2017 a 2022, foi observada uma melhora progressiva da situação na Região Nordeste, que saiu de uma situação de seca muito severa em 2017, para a melhor condição registrada na última década: apenas 2,4% do território com seca fraca em dezembro de 2022. Em 2023, no entanto, as condições de seca na Região se intensificaram, registrando, no fim daquele ano, a presença de seca em 97% do Nordeste. Coincidentemente, em 2024, a seca teve um comportamento bem semelhante, de forma que em dezembro o fenômeno também cobria uma área de aproximadamente 97% da Região.

Na Região Sul, em decorrência do fenômeno La Niña, que esteve ativo entre 2020 e 2022, provocando diminuição nos volumes de chuva, houve registro de seca extrema, com picos em fevereiro e março de 2022. Em 2023, no entanto, com o estabelecimento do El Niño, se verificou uma rápida atenuação das condições de seca no segundo semestre do ano, culminando no completo desaparecimento da seca relativa no mês de outubro, situação que perdurou até janeiro de 2024. A partir daí, o fenômeno voltou a se estabelecer gradualmente sobre a Região, mas com menor severidade, tendo sido registrada seca grave (S2) somente em outubro e novembro de 2024. Vale destacar que o estado gaúcho ficou livre de seca por 13 meses consecutivos – de outubro de 2023 a outubro de 2024 – período que abrange a ocorrência do maior desastre climático da história do Rio Grande do Sul: as enchentes de abril e maio de 2024.

Na Região Sudeste, a maior severidade de seca (categoria excepcional - S4) foi observada entre março de 2021 e outubro de 2022. O ano de 2023 foi o mais ameno do histórico de monitoramento na Região, com a melhor situação registrada em outubro, tanto em termos de abrangência do fenômeno (24% da área com seca) quanto de severidade (apenas 1% de seca moderada - S1). Em 2024, a seca voltou a se intensificar gradualmente, atingindo o pico em setembro, com 100% da Região coberta por seca, sendo 3% com seca extrema (S3).

Última a integrar o Monitor de Secas, a Região Norte passou a ser monitorada em sua totalidade a partir de dezembro de 2023. Naquele ano, um El Niño de forte intensidade teve grande influência sobre o comportamento das chuvas na Região, cujos impactos foram percebidos a partir do segundo semestre. Em 2024, o fenômeno foi intensificado até atingir seu pico em setembro, com 13% de seca na categoria excepcional (S4). Vale destacar que neste biênio (2023/2024) o Bioma Amazônico sofreu graves consequências de uma seca histórica e sem precedentes, com impactos na biodiversidade (queimadas de grandes proporções e mortandade de animais) e na hidrologia, afetando fortemente os setores de navegação e abastecimento.

Por fim, no Centro-Oeste, o curto histórico de monitoramento sugere a ocorrência de dois grandes eventos de seca de maior intensidade na Região, sendo um no biênio 2021/2022 e o outro em 2023/2024. Nas duas ocasiões, houve registro da seca de maior severidade na escala do Monitor (seca excepcional - S4), com o Bioma Pantanal sendo particularmente afetado por impactos decorrentes de seca.

Cheias

A cheia é um fenômeno hidrológico caracterizado pela elevação do nível dos rios e outros corpos d’água acima de sua média habitual, provocada, principalmente, por chuvas intensas e prolongadas. Quando o volume de água excede a capacidade de escoamento do canal ou da planície de inundação, podem ocorrer transbordamentos, resultando em inundações que afetam áreas ribeirinhas e, em casos mais graves, zonas urbanas. Nas cidades, além das inundações decorrentes das cheias de rios, também podem ocorrer inundações ocasionadas por insuficiência ou falhas nos sistemas de drenagem. Esses eventos são comumente chamados de alagamentos.

Os impactos das cheias vão desde danos a infraestrutura, perdas agrícolas e interrupção de serviços essenciais até riscos à vida humana e degradação ambiental. A ocupação inadequada de áreas sujeitas a inundações, o desmatamento e a impermeabilização do solo agravam a frequência e a gravidade desses eventos. Além disso, assim como as secas, as cheias tendem a se tornar mais intensas e mais frequentes em consequência da mudança do clima. Geralmente, os eventos de cheia ocorrem de forma rápida e localizada, causando danos imediatos sobre as populações e seus meios de vida. Os impactos tendem a ser mais severos quando as cheias atingem áreas urbanas, deixando pessoas  desabrigadas ou desalojadas .

Desabrigadas são pessoas cujas habitações foram destruídas ou danificadas por desastres ou estão localizadas em área de risco iminente de destruição e que necessitam de abrigos temporários para serem alojadas. Pessoas desalojadas são aquelas que também tiveram suas casas danificadas ou destruídas, mas que, não necessariamente, precisam de abrigos temporários.
Saiba mais

Na última década, episódios de cheias intensas ocorreram principalmente nas Regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul, com destaque para as cheias ocorridas no Rio Grande do Sul em 2023 e 2024.

A Amazônia enfrentou cheias históricas em 2021, com tempos de retorno acima de 100 anos e elevações expressivas em rios como o Acre, Negro, Solimões e Amazonas. Na ocasião, o Rio Negro atingiu nível recorde em Manaus, afetando cidades ribeirinhas e a logística regional. Em 2022 e 2023, as cheias atingiram os estados do Amazonas, Pará e Acre. Com inundações prolongadas, esses eventos impactaram populações ribeirinhas, áreas rurais e cidades como Manaus (AM), onde novamente o Rio Negro alcançou níveis históricos, causando inundação de bairros inteiros. Em Brasiléia e Epitaciolândia (AC), o Rio Acre atingiu níveis recordes, deixando milhares de pessoas desalojadas e muitas comunidades isoladas. Em Porto Velho (RO), a cheia de 2023 do Rio Madeira provocou alagamentos em bairros periféricos, isolamento de comunidades rurais e interrupção de rodovias, como a BR-364.

Na Região Nordeste, cheias ocorridas entre dezembro de 2021 e início de 2022 atingiram o sul da Bahia, deixando milhares de desabrigados. Em 2022, chuvas intensas causaram cheias no Rio Tocantins, afetando principalmente o município de Imperatriz (MA), resultando em centenas de famílias desalojadas ou desabrigadas. Também no início de 2022, o estado do Piauí enfrentou cheias significativas em diversos rios, entre eles Parnaíba, Marathaoan e Longá, afetando cidades como Floriano e a capital, Teresina.

Em janeiro de 2022, na Região Sudeste, a Bacia do Rio Doce enfrentou cheias que atingiram cidades de Minas Gerais e Espírito Santo, comprometendo infraestruturas urbanas, serviços básicos, como abastecimento de água e energia elétrica, e deixando milhares de famílias ribeirinhas desalojadas ou desabrigadas em Governador Valadares (MG) e Linhares (ES).

Na Região Sul, cheias extremamente graves impactaram o Rio Grande do Sul em 2023 e 2024. No ano de 2024, em particular, foram registradas precipitações acumuladas e vazões sem precedentes, com enormes impactos para 478 dos 497 municípios gaúchos.

Registros de Cheias

Para as estatísticas de cheias apresentadas neste Relatório, foram utilizados os dados mais recentes do Atlas Digital de Desastres do Brasil, elaborado pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC) do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional - MIDR. Com registros consolidados desde 1991, o Atlas fornece informações sistematizadas relacionadas às ocorrências de desastres e aos danos e prejuízos decorrentes, oficializando, assim, dados históricos sobre desastres no país.

Neste Relatório, foram consideradas todas as ocorrências registradas de desastres, e não apenas aquelas com reconhecimento pela SEDEC. Os registros das tipologias “Alagamentos”, “Enxurradas”, “Inundações” e “Chuvas Intensas”, integrantes do grupo de desastre “Hidrológico”, foram agrupados nas análises sob o termo “Cheias”. A inclusão da tipologia “Chuvas Intensas” nas estatísticas de cheias se deve ao aumento expressivo desse tipo de registro nos últimos anos e à frequência com que esses eventos resultam em alagamentos, inundações ou enxurradas.

De 2015 a 2024, foram quantificados 12.533 eventos de cheias associados a danos humanos, totalizando mais de 60 milhões de pessoas afetadas por cheias no Brasil. O ano mais crítico nesse período foi 2022, com 589 óbitos e aproximadamente 12,9 milhões de afetados, com destaque para as regiões Sudeste, Nordeste e Norte.

A partir de 2022, observa-se uma mudança de patamar no número de registros de cheias em comparação aos anos anteriores. No período de 2022 a 2024, o número médio de ocorrências foi 2,5 vezes maior que o observado entre 2015 e 2021, reunindo 51% dos eventos de cheias e 57% do total de pessoas afetadas na última década. Nesse período, destaca-se o aumento expressivo do número de cheias na Região Sul, especialmente em 2023 (1.171 eventos) e 2024 (807 eventos), os anos com maior número de eventos de 2015 a 2024. Vale ressaltar que, em 2024, o Rio Grande do Sul registrou o maior desastre relacionado a cheias de sua história, com impactos humanos, econômicos e sociais sem precedentes.

Em 2024, foram cerca de 12 milhões de pessoas afetadas por cheias (alagamentos, enxurradas, inundações e chuvas intensas) no Brasil. O dano humano mais perceptível em função das cheias é a perda de residência (desalojados e desabrigados), afetando mais de 1 milhão de pessoas. Além disso, foram registrados 255 óbitos decorrentes de eventos de cheias, sendo 187 somente na Região Sul.

A maior parte dos eventos de cheias, em 2024, ocorreu na Região Sul (49,9%), seguida pelas regiões Sudeste (23,9%) e Nordeste (13,2%). A Região Centro-Oeste, por outro lado, apresentou uma redução no número de eventos de cheias (76 eventos) em relação a anos anteriores, sendo o menor valor desde 2017, com 176 eventos.

Quanto ao número de pessoas afetadas por cheias em 2024, 66,2% vivem na Região Sul, seguido por 23,6% na Região Sudeste e 5,2% na Região Norte. Considerando o período de 2015 a 2024, 34,2% da população afetada por cheias reside na Região Sul.

Crises Hídricas

Nas crises hídricas, sejam as provocadas por secas, cheias ou ações humanas, ocorrem impactos ambientais e socioeconômicos. Nesse cenário, os usos múltiplos da água podem ser afetados, podendo haver prejuízos ao abastecimento público de água e à produção agropecuária, por exemplo. As crises são causadas por um conjunto de fatores que vão desde causas naturais, como a variabilidade sazonal e interanual nos padrões de chuvas, até causas antrópicas, como aumento populacional, aumento da demanda hídrica, acidentes, insuficiência ou ineficiência de ações de gestão e mudança climática.

Planos de Contingência

Em 2021, o Sistema Interligado Nacional (SIN) enfrentou uma crise hidroenergética que impactou severamente os principais reservatórios na Bacia do Rio Paraná. Com o risco iminente de esvaziamento dos reservatórios para 2022, a ANA aprovou, em outubro de 2021, o Plano de Contingência para a Recuperação dos Reservatórios do SIN. O Plano teve como objetivo promover o reenchimento dos reservatórios ao longo do período úmido 2021/2022, compreendido entre dezembro de 2021 e abril de 2022.

As medidas adotadas se concentraram nos reservatórios mais relevantes para a segurança hídrica nas bacias onde estão localizados, seja por sua situação de cabeceira, pela capacidade de regularização do sistema a jusante ou pelos potenciais impactos que os baixos níveis podem acarretar para os usos da água. Os reservatórios incluídos no plano foram: UHE Serra da Mesa (UGRH Tocantins), UHEs Três Marias e Sobradinho (UGRH São Francisco), UHEs Itumbiara e Emborcação (UGRH Paranaíba), UHEs Furnas e Mascarenhas de Moraes (UGRH Grande) e UHEs Jupiá e Porto Primavera (UGRH Paraná).

Para efetivar as medidas indicadas no Plano de Contingência, foram emitidas as Resoluções ANA nº 108, 110 e 111, todas de 2021, que estabeleceram limites e recomendações temporárias de redução de defluências dos reservatórios selecionados. As ações, combinadas com afluências dentro da média, resultaram na recuperação dos volumes úteis a níveis superiores a 70% na maioria dos reservatórios considerados no Plano de Contingência.

Em dezembro de 2022, considerando os níveis observados de armazenamento dos reservatórios no fim do período seco daquele ano, a ocorrência de chuvas abaixo da média em outubro de 2022 nas bacias dos rios Paranaíba e Grande, bem como os expressivos resultados obtidos com o Plano de Contingência de 2021/2022, a ANA aprovou o Plano de Contingência para Recomposição dos Volumes de Reservatórios nas UGRHs Paranaíba e Grande durante o período úmido 2022/2023.

O novo Plano de Contingência indicou medidas adicionais de operação de reservatórios a serem adotadas no período úmido entre janeiro e abril de 2023, com o objetivo de promover o reenchimento dos reservatórios, com foco na segurança hídrica e na garantia dos usos múltiplos da água em 2023 e nos anos seguintes. Fizeram parte do Plano de Contingência 2022/2023 os reservatórios das: UHEs Itumbiara e Emborcação, na UGRH Paranaíba; das UHEs Furnas e Mascarenhas de Moraes, na UGRH Grande; e das UHEs Jupiá e Porto Primavera, na UGRH Paraná. Para efetivar as medidas indicadas no novo Plano de Contingência, foram emitidas as Resoluções ANA nº 140, 141 e 142, todas de 2022.

A prática de defluências reduzidas, associada a afluências mais favoráveis, permitiu que a recuperação do armazenamento dos reservatórios alcançasse, em 28 de abril de 2023, os maiores volumes armazenados para essa data nos últimos 10 anos nos reservatórios das UGRHs Grande e Paranaíba, integrantes do Plano de Contingência.

Declarações de Situação de Escassez Hídrica

A Declaração de Situação Crítica de Escassez Hídrica é um instrumento previsto na Lei nº 9.984/2000, que define que compete à ANA declarar a situação crítica de escassez quantitativa ou qualitativa de recursos hídricos nos corpos hídricos que impactem o atendimento aos usos múltiplos localizados em rios de domínio da União, por prazo determinado, com base em estudos e dados de monitoramento e de acordo com critérios estabelecidos pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos.

De forma geral, a declaração tem como objetivo enfrentar a situação climática desfavorável observada em regiões específicas, que representam impacto potencial aos usos múltiplos. Mais especificamente, busca intensificar o monitoramento hidrológico nessas regiões, identificar impactos sobre os usos da água, propor medidas de prevenção e mitigação dos impactos, subsidiar a definição de regras especiais de uso da água e operação de reservatórios, permitir a adoção de mecanismos tarifários de contingência para saneamento, possibilitar a fiscalização do cumprimento de regras de uso da água, sinalizar a necessidade de implementação de planos de contingência pelos usuários e facilitar o processo de declaração de calamidade ou emergência por seca. O acompanhamento é feito por meio das reuniões da Sala de Crise, com ampla participação de órgãos e setores envolvidos.

A primeira Declaração de Situação Crítica de Escassez Hídrica foi emitida em 2021 em decorrência da crise hidroenergética na Região Hidrográfica do Paraná (UGRHs Paraná, Paranaíba, Paranapanema, Grande, PCJ e Iguaçu). Desde então, outras sete situações demandaram a utilização desse instrumento como forma de mitigar os impactos da seca.

Escassez Hídrica na Região Hidrográfica do Paraná

Em 2021, a bacia do Paraná vivenciou uma seca que afetou principalmente os setores de energia e transporte aquaviário. No ano hidrológico 2020-2021, foram observadas vazões abaixo da média histórica na maior parte das estações fluviométricas da Região. Nas estações da Bacia do Rio Grande, foram observadas vazões de estiagem com tempos de recorrência superiores a 100 anos. Com exceção de estações localizadas nas cabeceiras de algumas sub-bacias, as condições de seca foram bastante severas.

Por meio da Resolução nº 77, de 1º de junho de 2021, a ANA declarou situação crítica de escassez quantitativa dos recursos hídricos na Região Hidrográfica do Paraná até 30 de novembro de 2021, abrangendo todo o período mais seco. Entre outros aspectos, o normativo previu a possibilidade de definição, pela ANA, de condições de operação transitórias para reservatórios ou sistemas hídricos e de regras para outros usos além da geração hidrelétrica, com o objetivo de assegurar os usos múltiplos, que resultou nas resoluções 193/2024 (Sistema Hídrico do Rio Grande) e 194/2024 (Sistema Hídrico do Rio Paranaíba). Os principais reservatórios da região recuperaram seus volumes ao longo de 2022.

Escassez Hídrica no Rio Madeira

Durante a primeira quinzena de outubro de 2023, sob o efeito do El Niño, as usinas hidrelétricas Santo Antônio e Jirau registraram as menores vazões naturais para esse período desde o início de suas operações, em 2012 e 2013, respectivamente. A estação fluviométrica de Porto Velho registrou seu menor valor histórico até aquele momento desde 1967, atingindo 110 cm em 7 de outubro de 2023. No ano seguinte, a seca foi ainda mais extrema, fazendo o nível do Rio Madeira alcançar o valor de 26 cm em 12 de outubro de 2024, que é o menor registro de todo o histórico.

Considerando os impactos nos múltiplos usos da água, especialmente na navegação e na geração hidrelétrica, e as ações implementadas no contexto do Plano de Contingência para a prevenção dos efeitos do El Niño na Região Norte, a ANA emitiu, em 9 de outubro de 2023, a Resolução ANA nº 164, que declarou a Situação Crítica de Escassez Quantitativa dos Recursos Hídricos no Rio Madeira como uma medida de mitigação dos impactos da seca sobre os usos da água, com vigência até 30 de novembro de 2023.

Entre outubro de 2023 e julho de 2024, foi observada uma redução de 33% na precipitação acumulada na Bacia do Rio Madeira, resultando nos menores níveis d’água dos últimos anos, abaixo das cotas de 90% de permanência e próximos dos mínimos históricos, especialmente nas estações de Porto Velho e Manicoré. Antecipando-se aos impactos da seca, a ANA emitiu nova Declaração de Situação Crítica de Escassez Quantitativa dos Recursos Hídricos, conforme Resolução ANA nº 202, de 30 de julho de 2024.

Na seca de 2023, devido às baixas vazões afluentes, a operação da UHE Santo Antônio foi paralisada por duas semanas, entre 2 e 16 de outubro de 2023. Em 2024, embora o evento tenha sido ainda mais severo, o aprendizado do ano anterior permitiu que a operação da UHE fosse ajustada, concentrando a geração nas unidades da margem direita e elevando artificialmente a cota de jusante, o que possibilitou a continuidade parcial da geração de energia.

A utilização da hidrovia também foi impactada. A Capitania Fluvial de Porto de Velho proibiu a navegação noturna em alguns trechos dos rios e determinou restrições à navegação diurna, incluindo limite de calado, além da necessidade de redobrar a atenção em trechos críticos com bancos de areia e pedrais.

Escassez Hídrica na Região Hidrográfica do Paraguai

No período chuvoso de 2023-2024, foram observados níveis próximos aos mínimos históricos para a época em diversos rios da Região Centro-Oeste, situação que se manteve no período seco, de maio a setembro, causando impactos sobre usos da água, além de danos aos ecossistemas, em especial para o Bioma Pantanal.

O Monitor de Secas apontava seca classificada como fraca, moderada e grave, com impactos de longo prazo. As vazões dos rios ficaram abaixo da vazão de referência (Q95) logo no início da estação seca, afetando especialmente a navegação — com riscos de redução da carga e paralisação do tráfego —, a geração de energia (notadamente nas usinas a fio d'água) e as atividades de pesca, turismo e lazer. As captações de água para abastecimento também foram impactadas.

Com o objetivo de mitigar os impactos da seca, principalmente sobre o abastecimento humano, a hidrovia do Paraguai e os aproveitamentos hidrelétricos, foi declarada Situação Crítica de Escassez Quantitativa dos Recursos Hídricos na Região Hidrográfica do Paraguai, que inclui grande parte do Bioma Pantanal, até 31 de outubro de 2024 (Resolução nº 195, de 13 de maio de 2024). Em novembro de 2024, como o início da estação chuvosa ainda não mostrava uma reversão da seca e como os modelos de previsão sazonal indicavam um cenário de irregularidade das chuvas abaixo da média, foi editada uma nova declaração com vigência até 31 de janeiro de 2025 (Resolução nº 223, de 29 de novembro de 2024).

Como referência para avaliação da situação hidrológica da região, destaca-se a estação fluviométrica em Porto Murtinho (MS), que registrou 54 cm em 22 de outubro de 2024, o menor valor do histórico desde 1937.

O Rio Purus é afluente do Rio Solimões pela margem direita e drena uma área de 375.000 km², sendo 93,5% inserida em território nacional, 6,0% no Peru e 0,5% na Bolívia. O período chuvoso na bacia se estende normalmente de novembro a abril, e o período seco, de maio a outubro, sendo outubro um mês de transição. As precipitações registradas entre outubro de 2023 e junho de 2024 corresponderam a cerca de 70% da média histórica, ocasionando, em algumas estações fluviométricas, mínimos históricos de níveis de água para a época do ano. As vazões apresentaram valores extremamente baixos, com tempos de recorrência superiores a 100 anos, indicando severidade excepcional da seca. Em Rio Branco, o nível do Rio Acre, afluente da margem direita do Rio Purus, atingiu 123 cm em 21 de setembro de 2024 - o menor valor de todo histórico desde 1967.

Escassez Hídrica no Rio Purus e seus Afluentes, Rio Acre e Rio Iaco

Os impactos desse cenário foram sentidos especialmente nos usos que dependem do nível dos rios, como o abastecimento público da cidade de Rio Branco (no Rio Acre) e a navegação, fundamental para o transporte de pessoas e mercadorias na região.

Diante desse quadro, e considerando a previsão de manutenção das condições críticas ao longo do período seco de 2024, a ANA declarou Situação Crítica de Escassez Quantitativa dos Recursos Hídricos no Rio Purus e seus principais afluentes, Rio Acre e Rio Iaco, até 30 de novembro de 2024 (Resolução ANA nº 203/2024).

Escassez Hídrica no Trecho baixo do Rio Tapajós

O Rio Tapajós é afluente do Rio Amazonas pela margem direita e drena uma área de 493.986 km², o que corresponde a 12,7% da Região Hidrográfica Amazônica. O período chuvoso na bacia se estende normalmente de outubro a abril, e o período seco, de maio a setembro.

Devido ao déficit de mais de 25% na precipitação entre 2023 e 2024, a Bacia do Rio Tapajós registrou níveis d’água e vazões significativamente abaixo da média histórica, especialmente em seu trecho baixo, entre Itaituba e Santarém (PA). Esse cenário se agravou ao longo de 2024, com cotas e vazões próximas ou inferiores aos mínimos já registrados para o período seco, afetando os múltiplos usos da água na região.

Essa situação impactou diretamente a geração de energia nas usinas instaladas no Rio Teles Pires, formador do Rio Tapajós, e a navegação na hidrovia. Além disso, havia o risco de comprometer o funcionamento de captações para o abastecimento de 48 cidades. Por conta da persistência da seca e a necessidade de mitigar seus efeitos, a ANA declarou, por meio da Resolução nº 212, de 25 de setembro de 2024, a Situação Crítica de Escassez Quantitativa dos Recursos Hídricos no trecho baixo do Rio Tapajós, com vigência até 30 de novembro de 2024.

Escassez Hídrica no Rio Xingu e no afluente, o Rio Iriri

O Rio Xingu, afluente do Rio Amazonas pela margem direita, drena uma área de 509.685 km², abrangendo extensas áreas de Terras Indígenas e Unidades de Conservação. Entre outubro de 2023 e agosto de 2024, foram observadas precipitações cerca de 20% abaixo da média histórica na bacia do Rio Xingu, resultando em níveis d’água e vazões significativamente reduzidos, próximos ou inferiores às mínimas históricas para a época do ano em estações nos rios Xingu e Iriri. As vazões, extremamente baixas, apresentaram tempos de recorrência superiores a 100 anos, indicando uma seca de gravidade extrema.

Esse cenário impactou especialmente a geração hidrelétrica no complexo Belo Monte, maior aproveitamento de geração 100% brasileiro, com capacidade instalada de 11.233 MW, o que representa 11% do Sistema Interligado Nacional. Belo Monte foi concebida para operar a fio d’água e, diante do cenário de escassez hídrica, teve que operar com vazões afluentes muito abaixo da média.

A navegação, fundamental para integração de comunidades ribeirinhas e transporte de suprimentos, ficou prejudicada, especialmente na região da Volta Grande do Xingu, em trechos com corredeiras e leito rochoso, exigindo maior atenção e, em alguns casos, restrições de carga e paralisação do tráfego.

Diante da persistência do quadro de seca e do agravamento previsto até a retomada do período chuvoso, a ANA, por meio da Resolução nº 214/2024, declarou Situação Crítica de Escassez Quantitativa dos Recursos Hídricos no Rio Xingu e no Rio Iriri, com vigência até 30 de novembro de 2024.

Cheias na Região Sul

Na Região Sul, as precipitações causaram cheias com impactos extremamente graves sobre as populações. As enchentes no Rio Grande do Sul em 2023 e 2024 tiveram um enorme impacto nas comunidades locais, causando danos materiais, perdas de vidas humanas e de animais, deixando pessoas desabrigadas e desalojadas.

As enchentes que afetaram o estado do Rio Grande do Sul em 2023 ocorreram, principalmente, em setembro e novembro, marcadas por episódios de chuvas intensas e concentradas, especialmente nas regiões norte e nordeste do estado. Esses eventos causaram cheias históricas nas bacias hidrográficas dos rios Taquari-Antas, Uruguai e Caí. Algumas estações nas bacias dos rios Taquari-Antas e Uruguai chegaram a registrar acumulados superiores a 500 mm, com volumes diários maiores que 100 mm, na primeira semana de setembro.

As fortes chuvas causaram destruição de plantações, perda de vidas humanas e de animais, além de danos em máquinas e infraestruturas. A Defesa Civil estimou que mais de 390 mil pessoas foram afetadas, em 106 municípios, deixando, no Vale do Rio Taquari, 54 óbitos. Muitos municípios ficaram sem eletricidade e sem acesso à internet e telefone, e cerca de 100 mil pessoas ficaram sem energia elétrica. Houve bloqueio parcial ou total de 16 rodovias estaduais e destruição de pontes, como a ponte de ferro sobre o Rio das Antas e a Ponte Rodoferroviária Brochado da Rocha. Diversos municípios enfrentaram escassez de alimentos e água potável, como Roca Sales.

O Rio Uruguai também registrou níveis críticos de inundação, afetando várias cidades ao longo de seu curso. Na bacia do Rio Caí ocorreram inundações especialmente em áreas urbanas.

Ainda se recuperando das enchentes do ano anterior, em 2024, o Rio Grande do Sul enfrentou a maior catástrofe climática de sua história. As inundações que aconteceram entre abril e maio estão entre os maiores desastres de origem climática da história do país, superando significativamente os impactos das cheias de 2023. Entre 26 de abril e 5 de maio de 2024, estações automáticas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN), em diversos municípios, registraram precipitação acumulada superior a 500 mm (cerca de 30% do esperado para o ano), especialmente na região central e nordeste do estado. A situação foi agravada por novos períodos de chuvas intensas, que começaram em 10 de maio, afetando as cabeceiras de vários rios.

Nos eventos de maio de 2024, as principais bacias hidrográficas atingidas foram as do Rio Taquari-Antas, do Rio Jacuí e a do Rio dos Sinos. A Bacia do Rio Taquari-Antas novamente foi uma das mais afetadas, com o Rio Taquari registrando novos picos de enchente. Em 2 de maio de 2024, o nível do Rio Taquari, em Lajeado, ultrapassou 33 metros na Estação Estrela (Código ANA 86879300), superando o recorde de setembro de 2023. O Jacuí também registrou níveis elevados, causando inundações em várias localidades. Na Bacia do Rio dos Sinos, áreas industriais e residenciais foram afetadas pelas enchentes.

As chuvas causaram rápida elevação no nível dos rios e inundações urbanas, resultando em destruição significativa em 478 dos 497 municípios gaúchos. Quase 2,4 milhões de pessoas foram impactadas, sendo registradas 183 mortes, 27 pessoas desaparecidas e 806 feridas. Cerca de 146 mil pessoas foram desalojadas e mais de 50 mil ficaram desabrigadas. Além disso, a exposição às águas da inundação causou mais de 15 mil casos registrados de leptospirose.

A combinação das cheias nos rios na Bacia do Guaíba resultou na maior cheia registrada nesse rio, em Porto Alegre. Em 5 maio de 2024, o nível do Guaíba, no local da Estação Cais Mauá, C6, atingiu 5,37 metros, correspondente a um nível nunca observado, superando tanto a cheia de novembro de 2023 (3,46 m) quanto a marca histórica da enchente de 1941 (4,76 m), estabelecendo um novo patamar crítico para a capital gaúcha e evidenciando a gravidade do evento de 2024.

Na Estação Usina do Gasômetro (Código ANA 87444000), o nível permaneceu acima da cota de inundação por 30 dias, entre 2 de maio e 1º de junho, voltando a superar este patamar em 3 de junho de 2024. As maiores vazões ocorreram nos rios Taquari, Jacuí, Guaíba e no Rio Uruguai.

Com mais de 15 mil km² submersos, a economia do estado sofreu um golpe significativo, com prejuízos estimados em bilhões de reais, incluindo perdas agrícolas, fechamento de indústrias, danos à infraestrutura e interrupção de serviços essenciais como transporte, educação e saúde. Mais de 250 trechos de estrada e 140 pontes foram comprometidos, isolando comunidades e dificultando o acesso a áreas críticas. Durante o evento, quase a totalidade das barragens do estado, seja para geração de energia, abastecimento ou irrigação, apresentou elevado risco de rompimento. A inundação gerou um volume extremo de resíduos sólidos nas áreas urbanas, que comprometeu a recuperação das áreas afetadas por meses. O aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, que é responsável pela maioria dos voos da região, ficou fechado por cerca de seis meses.

Várias regiões ficaram sem abastecimento de água potável por semanas. Em todo o Rio Grande do Sul, segundo a Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan), a falta de água atingiu 64 municípios, sendo 43 severamente impactados por alagamentos das estações, unidades e sistemas da companhia. Cidades como Alvorada, Cachoeirinha, Canoas, Esteio, Sapucaia e Viamão ficaram 100% desabastecidas.

Conforme avaliação da CEPAL, BID e Banco Mundial, os serviços de água potável sofreram danos diretos e perdas operacionais, totalizando mais de R$ 1 bilhão em efeitos no setor de água e saneamento. Os danos afetaram sistemas de captação, estações de tratamento, redes de distribuição e adutoras, prejudicando o abastecimento de municípios inteiros, inclusive na Região Metropolitana de Porto Alegre. Em diversos municípios, foi necessário recorrer ao uso emergencial de carros-pipa e à ativação de fontes alternativas, além de medidas de desinfecção e recuperação de sistemas.

Entre os impactos diretos no meio rural, apresentados no Relatório de Impactos das Cheias publicado pelo Governo Estadual, destacam-se a contaminação de 4.570 fontes de água e a interrupção do acesso à água potável para 34.519 famílias, além da destruição de açudes, poços e demais estruturas de captação e armazenamento.

A magnitude dos impactos sobre os sistemas de abastecimento evidencia a urgência de investimentos em resiliência hídrica, com foco na diversificação das fontes de abastecimento, proteção de mananciais, redundância operacional e modernização das estruturas existentes.

Ocorreram danos significativos ao setor elétrico, com 25 usinas hidrelétricas, subestações e linhas de transmissão afetadas. A rede de distribuição foi amplamente comprometida, com destruição de postes, transformadores e medidores — sobretudo no Vale do Taquari e em áreas ribeirinhas. 

No Rio Jacuí, a UHE Itaúba registrou vazão defluente máxima de 6.099 m³/s, valor próximo da capacidade nominal de descarga de seu vertedor (7.236 m³/s). Na UHE Dona Francisca, cerca de 40 km a jusante, a vazão defluente máxima atingiu 12.048 m³/s, superando a capacidade nominal do vertedor, que é de 10.614 m³/s, dimensionado considerando uma cheia hipotética com tempo de retorno de 10 mil anos. Nessa UHE foi observado um rápido aumento da vazão, passando de menos de 2.000 m³/s para mais de 12.000 m³/s em apenas 10 horas. Outro impacto da cheia de maio foi o rompimento parcial da barragem 14 de Julho, localizada no Rio das Antas.

Na atividade pecuária foram registrados impactos em diversas regiões do estado e para diferentes tipos de rebanhos, com prejuízos principalmente para os setores de bovinocultura de leite, suinocultura e avicultura.

A ANA participou do esforço coordenado do Governo Federal com as esferas estadual e municipais, emitindo boletins diários de acompanhamento, disponibilizando informações da Rede Hidrometeorológica Nacional e aquelas provenientes da articulação com a sala de situação estadual, localizada na SEMA/RS. As melhores informações foram disponibilizadas e compartilhadas por meio das reuniões da Sala de Crise, onde também foram identificadas questões relativas à gestão dos recursos hídricos e à operação dos reservatórios que puderam colaborar com a mitigação dos impactos.

Com o objetivo de manter o monitoramento hidrometeorológico, com foco no acompanhamento do evento em curso e no fornecimento de informações para a modelagem e ações de reconstrução, foram concentrados esforços na recuperação de estações perdidas e na continuidade da transmissão dos dados hidrológicos, como uma das medidas adotadas em resposta imediata à crise.

Paralelamente, com o objetivo de promover e executar estudos hidrológicos de caracterização dos eventos ocorridos e para subsidiar o planejamento e a segurança de infraestruturas de reservação e de proteção de cheias no Estado do Rio Grande do Sul, a ANA instituiu o Grupo Técnico de Assessoramento para Estudos Hidrológicos e de Segurança de Infraestruturas de Reservação e de Proteção de Cheias no Estado do Rio Grande do Sul (GTA RS).

Alguns produtos elaborados no âmbito do GTA RS estão apresentados no livro “As Enchentes no Rio Grande do Sul – Lições, Desafios e Caminhos para um Futuro Resiliente”, publicado em maio de 2025. Com o objetivo de fornecer uma base sólida para a tomada de decisões, tanto no âmbito da reconstrução quanto no planejamento de políticas públicas e ações de gestão de riscos, o documento está organizado em eixos temáticos que abordam desde a caracterização do evento e suas consequências até propostas concretas para a prevenção e mitigação de impactos futuros. Aborda também a relação entre eventos extremos e a mudança do clima, destacando a necessidade de se preparar para eventos além dos já observados e de incluir a perspectiva climática em todas as fases de planejamento. Entre as recomendações, destacam-se:

  • fortalecer redes de monitoramento hidrológico (pluviométrico e fluviométrico), com redundância e cobertura territorial ampla para evitar falhas durante eventos extremos;
  • investir em medidas integradas: monitoramento, previsão, mapeamento de risco, planejamento urbano e ações de adaptação climática;
  • evoluir e intensificar as estratégias de comunicação com a sociedade e promover uma cultura de prevenção, por meio da educação;
  • realizar inspeções periódicas nos sistemas de proteção contra inundações (entre 35% e 40% dos afetados estavam em áreas onde diques falharam por problemas relacionados à manutenção das estruturas ou por estarem em desacordo com o projeto); e
  • reconstruir com foco em resiliência.

Além dessa publicação, foram elaborados estudos de reavaliação de curvas Intensidade-Duração-Frequência (IDF) e a regionalização de vazões máximas anuais para o estado do Rio Grande do Sul, além da caracterização hidrológica dos eventos ocorridos e modelagem de cheias em escala regional.

Salas de Situação

A Sala de Situação da ANA, inaugurada em novembro de 2009, é um espaço permanente, com infraestrutura dedicada ao monitoramento em tempo real das condições hidrológicas e meteorológicas nas principais bacias hidrográficas do país. Nesse ambiente, são realizadas análises de dados, avaliação de riscos e apoio à tomada de decisão diante de eventos críticos, como secas e inundações. O principal objetivo é fornecer informações atualizadas e confiáveis para subsidiar ações de prevenção, preparação e resposta a situações de risco hidrológico.

Por meio da Sala de Situação, a ANA acompanha os níveis e as vazões dos rios, a operação de reservatórios e sistemas hídricos, as previsões meteorológicas e o surgimento de eventos extremos, elaborando boletins diários e relatórios especiais para orientar o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH) e fornecer informações úteis para as ações dos integrantes do Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil (SINPDEC).

Além da sala instalada na sede da ANA, o modelo foi replicado em todos os estados, promovendo a integração da ANA com os órgãos gestores estaduais de recursos hídricos, defesa civil e instituições que atuam com análise de dados espaciais e meteorológicos, com vistas ao monitoramento mais amplo dos eventos críticos, abrangendo desde a escala regional até a escala local, esta feita especificamente pelos estados. As informações geradas são compartilhadas por meio da divulgação de boletins de monitoramento, dando suporte para a tomada de decisão das autoridades responsáveis pela gestão de eventos hidrológicos críticos.

A Sala de Situação, ao funcionar de modo contínuo, diferencia-se das Salas de Crise, que são acionadas de forma temporária durante eventos críticos em desenvolvimento, e das Salas de Acompanhamento, voltadas ao monitoramento de sistemas com regras operacionais estabelecidas. Todas essas iniciativas, no entanto, compartilham o mesmo objetivo de fortalecer a segurança hídrica no Brasil frente a ocorrência de eventos hidrometeorológicos críticos.

Salas de Crise

De acordo com a Resolução ANA nº 155/2023, as Salas de Crise destinam-se à promoção de medidas voltadas à minimização dos impactos de eventos hidrológicos críticos de qualquer espécie, em áreas delimitadas, que podem comprometer a segurança hídrica ou os usos múltiplos da água. Constituem-se em ambientes de articulação entre atores governamentais e não governamentais, criados para subsidiar a adoção de medidas relativas à preparação, prevenção e mitigação de impactos de eventos hidrológicos críticos.

As Salas de Crise são ativadas quando a segurança hídrica ou os usos múltiplos da água estão sob risco em áreas delimitadas. Nessas situações, reúnem-se representantes de órgãos públicos, setores usuários, comitês de bacia, Defesa Civil, órgãos ambientais, de clima e tempo, entidades de alerta de desastres naturais e o setor elétrico, entre outros. O funcionamento dessas salas permite alinhar diagnósticos, compartilhar dados em tempo real, esclarecer dúvidas e subsidiar decisões para a gestão de risco de eventos hidrológicos críticos, com atuação participativa e transparente. Todas as reuniões são transmitidas ao vivo pelo canal da ANA no YouTube, onde permanecem disponíveis.

Entre 2021 e 2024, a ANA intensificou a atuação das Salas de Crise para enfrentar eventos hidrológicos extremos no país. Foram instaladas Salas de Crise para fazer a gestão de risco de seca nas bacias dos rios Madeira e Doce. O Rio Madeira enfrentou novos níveis mínimos históricos em 2024, enquanto o Rio Doce passou por estiagem em 2021, recuperação em 2022 e nova seca em 2023, com normalização apenas no período chuvoso de 2023/2024.

Em resposta aos efeitos do fenômeno El Niño, foram instaladas, em 2023, novas Salas de Crise nas regiões Norte e Nordeste, somando-se à da Região Sul, criada em 2022, que se manteve ativa em virtude das severas inundações ocorridas no Rio Grande do Sul, em 2023 e 2024. No mesmo ano, as Salas das Regiões Norte, Nordeste e da bacia do Alto Paraguai acompanharam os impactos da seca severa.

Destaca-se ainda a instalação da Sala de Crise do Rio Tocantins, em 2024, para monitorar os efeitos sobre os usos múltiplos da água após o desabamento da ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira, entre Tocantins e Maranhão.


As Salas de Crise reforçam o papel da ANA na gestão de riscos e na articulação interinstitucional frente aos eventos extremos relacionados à água.
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Mudança do Clima

Um dos efeitos da mudança do clima diz respeito às alterações no ciclo hidrológico decorrentes do aumento da energia na atmosfera mais aquecida. Além de aumentar a ocorrência de eventos extremos, como chuvas intensas e secas severas, a mudança do clima modifica o padrão médio de precipitação e evapotranspiração nas bacias hidrográficas, o que altera as estatísticas hidrológicas e impacta o planejamento da gestão dos recursos hídricos no futuro.

Com o objetivo de compreender os impactos da mudança climática sobre os recursos hídricos nas diferentes regiões brasileiras, em escala espacial e temporal compatível com o planejamento e a gestão, a ANA publicou, em 2024, o estudo “Impacto da Mudança Climática nos Recursos Hídricos do Brasil”. Esse trabalho apresenta um quadro detalhado da vulnerabilidade futura e fornece subsídios para orientar estratégias de adaptação em múltiplas escalas, reforçando a importância do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos  (SINGREH) como indutor de políticas públicas voltadas à segurança hídrica.

Para simular os impactos futuros sobre a evapotranspiração, chuva e vazões, considerou-se o conjunto de cenários de mudança do clima constantes no 6º Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (em inglês, Intergovernmental Panel on Climate Change – IPCC), que são impulsionados por diferentes pressupostos socioeconômicos, denominados de “Caminhos Socioeconômicos Compartilhados”: SSP1-2.6, SSP2-4.5, SSP3-7.0 e SSP5-8.5. Os cenários de emissões ajudam a compreender como as escolhas feitas no presente podem influenciar o clima no futuro.

De forma simplificada, o SSP1-2.6 representa um mundo que aposta em sustentabilidade, com uso de energia limpa, menos desigualdade e forte cooperação internacional, resultando em baixo aquecimento (menos de 2°C até 2100). O SSP2-4.5 é um cenário de "meio do caminho", com avanços moderados e políticas climáticas limitadas, levando a um aquecimento maior, entre 2°C e 3°C. Já o SSP3-7.0 mostra um mundo dividido, com rivalidade entre países, pouca cooperação e altas emissões, o que pode causar aumento significativo da temperatura, com impactos graves para todos. Por fim, o SSP5-8.5 é o cenário mais extremo, em que o crescimento econômico é baseado no uso intenso de combustíveis fósseis, sem preocupação com o meio ambiente, levando a um aquecimento acima de 4°C e a riscos climáticos severos.

No estudo da ANA, foram adotados três horizontes temporais (2015 a 2040; 2041 a 2070; e 2071 a 2100) e a menor escala territorial disponível, considerando um recorte espacial refinado (mais de 450 mil trechos de rios do Brasil), dado pela base hidrográfica ottocodificada (BHO 2017 5k), utilizada pela ANA no planejamento e na gestão de recursos hídricos. Ao todo, para cada trecho de rio da BHO, foram definidos mais de 120 cenários de mudança do clima considerando os três horizontes temporais do estudo.

Os resultados do estudo “Impacto da Mudança Climática nos Recursos Hídricos do Brasil” apontaram:

  • aumento geral da evapotranspiração potencial em todo o país, independentemente da região hidrográfica, especialmente notável nas regiões Amazônica, Paraguai e São Francisco e em menor grau nas regiões hidrográficas Uruguai e Atlântico Sul;
  • tendência de redução da precipitação anual em 10 das 12 regiões hidrográficas brasileiras, com exceção das regiões Uruguai e Atlântico Sul, onde não foi observada nenhuma tendência significativa; e
  • tendência de diminuição das vazões e disponibilidade hídrica, representada pela Q95, em 10 das 12 regiões hidrográficas, com exceção, novamente, das regiões Uruguai e Atlântico Sul.

Os resultados mostram, ainda, que, à medida que os cenários de emissão se intensificam e o horizonte temporal avança, os impactos negativos sobre a oferta hídrica se ampliam, com reduções mais severas e persistentes, reforçando a urgência de estratégias de adaptação espacialmente direcionadas, setorialmente integradas e ajustadas aos diferentes graus de risco identificados nas regiões

Neste Relatório, para ilustrar os resultados gerais do impacto da mudança no clima na disponibilidade hídrica, foi selecionado o cenário intermediário SSP2-4.5. A análise da variação percentual média do  percentil 25%  da disponibilidade hídrica nesse cenário, para os períodos de 2015-2040 e 2041-2070, revela que a maior parte dos rios brasileiros tende a apresentar redução, configurando um quadro de alerta para a segurança hídrica nacional.

O percentil 25% corresponde ao valor abaixo do qual se encontram 25% das projeções do conjunto de cenários futuros. A utilização desse limiar como parâmetro representa uma estimativa moderada de mudança — nem a mais drástica, nem a menos severa —, refletindo condições relevantes de mudança, mas ainda assim consideradas realistas e manejáveis frente às capacidades locais e aos recursos disponíveis.

Destacam-se quedas superiores a 30% — e, em alguns casos, acima de 40% — nas regiões hidrográficas do Amazonas, Tocantins-Araguaia, Atlântico Nordeste Oriental e São Francisco, com potencial para comprometer os usos da água. Bacias do Sudeste e parte do Centro-Oeste, como Paraná e Paraíba do Sul, apresentam reduções de 20% a 30%, também preocupantes por sua relevância estratégica. No Sul, observam-se aumentos modestos em alguns trechos e reduções em outros, como no Rio Uruguai, o que indica um cenário heterogêneo e de maior incerteza.

A avaliação de impactos da mudança do clima nos recursos hídricos a partir de futuros hidroclimáticos incertos, mas plausíveis, tem como objetivo indicar caminhos possíveis para a adaptação, que se mostra necessária em qualquer cenário de redução de emissões de gases de efeito estufa. Isso significa dizer que as emissões históricas já alteraram o clima de forma a impactar a circulação atmosférica e, por consequência, o ciclo hidrológico.

Destaca-se ainda que medidas de adaptação para o setor de recursos hídricos contemplam a estratégia adotada pelo país no Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima - PNA, que, para esse setor, tinha como principal objetivo analisar os impactos da mudança do clima sobre os recursos hídricos e seus principais usuários, identificando as medidas de adaptação para melhorar a capacidade de resposta da gestão dos recursos hídricos e da governança em um cenário de maior variabilidade climática.

Além disso, também no âmbito do PNA, a partir dos impactos identificados no estudo “Impacto da Mudança Climática nos Recursos Hídricos do Brasil”, foi possível classificar rios e municípios quanto ao impacto potencial da mudança do clima sobre os riscos de cheias. Nesse sentido, considerando apenas o horizonte temporal de curto prazo (2015-2040), foram definidas classes que indicam níveis crescentes de gravidade e urgência das situações previstas, com base em critérios de convergência e magnitude das projeções. São elas:

  • Emergencial: indica situações que exigem resposta imediata;
  • Crítica: indica situações com forte potencial de impacto, mas que ainda podem ser gerenciadas com ações intensivas;
  • Alerta: indica condições que exigem vigilância e preparação preventiva; e
  • Cautela: indica cenários menos emergentes, mas que ainda requerem atenção no monitoramento.

Ressalta-se que, os impactos potenciais dos riscos de cheias foram calculados para os trechos de rios e, em seguida, extrapolados para as áreas dos municípios, de forma a possibilitar a melhor localização dos impactos associados.

Quanto às secas, de forma geral, as vulnerabilidades atualmente conhecidas e os impactos já percebidos tendem a se intensificar. No Nordeste, os cenários apontam redução na disponibilidade em corpos hídricos que são essenciais para a economia e a subsistência das comunidades, refletindo a necessidade de uma gestão adaptativa em áreas que historicamente sofrem com a escassez de água. Esse é o caso do Rio São Francisco que, conforme o estudo, poderá ter sua vazão reduzida em 40% até 2040. Trata-se de um rio essencial para a segurança hídrica e o desenvolvimento econômico do nordeste brasileiro, o que enfatiza a importância de se avançar na adoção de medidas adaptativas para a região.

Para a Região Norte, os cenários indicam que os cursos d'água com maior risco adicional de seca estão nas sub-bacias dos rios Amazonas, Xingu e Tocantins-Araguaia, sugerindo necessidade de monitoramento contínuo e de estratégias preventivas de adaptação.

No Centro-Oeste, região chave para a produção agrícola e pecuária brasileira, ressalta-se o elevado grau de risco potencial de seca verificado na bacia do Rio Paraguai. A preservação dessa bacia é crucial não apenas para a biodiversidade do Pantanal, mas também pela importância econômica que o rio possui para a navegação e o abastecimento local.

Na Região Sudeste, que concentra grande parte da população e da atividade econômica do Brasil, elevados graus de risco adicional para seca foram observados nas bacias dos rios Doce, Paranapanema e Grande, que, além de serem mananciais de abastecimento, são essenciais para o desenvolvimento das atividades econômicas e, no caso dos dois últimos, para a produção de energia hidrelétrica do país.

Na Região Sul, a bacia com maior risco potencial para a seca foi a do Rio Uruguai, indicando a necessidade de monitoramento e de medidas preventivas para garantir a sustentabilidade da bacia em um cenário de mudança climática. Esse rio é essencial para a região, onde a economia depende significativamente da agricultura, e, portanto, qualquer alteração na disponibilidade hídrica pode afetar a produção local.

Impacto do risco de redução da disponibilidade hídrica nos usos da água

Considerar o impacto das mudanças climáticas na disponibilidade hídrica (Q95) para os diversos setores usuários é fundamental para a segurança dos recursos hídricos e a continuidade dos serviços essenciais em diferentes setores, como a agricultura irrigada, a geração de energia, o abastecimento público e a indústria. Cada um desses setores depende de volumes específicos de água e possui necessidades operacionais distintas, o que exige análise diferenciada do impacto da mudança climática sobre a disponibilidade hídrica.

A análise dos impactos sobre a disponibilidade hídrica na agricultura irrigada revela a elevada vulnerabilidade deste setor, com predominância de captações nas classes emergencial (19%) e crítica (43%), indicando forte risco de escassez hídrica e a necessidade urgente de adoção de tecnologias mais eficientes e políticas de uso sustentável da água.

No setor de abastecimento urbano, mais da metade das captações estão classificadas como emergenciais (18%) ou críticas (33%), o que compromete a segurança hídrica da população e exige estratégias de mitigação, como conservação e redução de perdas.

Na indústria, 37% das captações foram classificadas como críticas e 14% como emergenciais. Embora haja certa resiliência, os registros em classes de risco elevado apontam para potenciais impactos localizados que podem afetar a produção, demandando boas práticas de uso da água, como reúso e racionalização.

O setor hidrelétrico apresenta uma distribuição equilibrada, com destaque para as classes Alerta (29%) e Crítica (36%), evidenciando a necessidade de planejamento energético que incorpore as variabilidades climáticas.

Em todos os setores, os riscos aumentam conforme os cenários de emissões se intensificam, reforçando a urgência de estratégias de adaptação climática específicas e integradas à gestão dos recursos hídricos.

Impacto da mudança do clima sobre o risco potencial de secas e cheias para povos indígenas e comunidades tradicionais

Um aspecto inovador do Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima - PNA foi a incorporação da justiça climática e da cidadania hídrica, reconhecendo que comunidades vulneráveis, como indígenas e quilombolas, estão entre as mais expostas, embora pouco contribuam para a crise climática. A justiça climática demanda que a equidade e os direitos humanos – aqui destaca-se o acesso à água em quantidade e qualidade adequadas – estejam no centro da tomada de decisão dos governos sobre a adaptação aos impactos da mudança do clima.

Nesse sentido, a ANA avaliou o risco do impacto da mudança climática (tanto para risco de escassez hídrica quanto para cheias) para povos indígenas, comunidades tradicionais e população com alta vulnerabilidade social.

As projeções para povos indígenas indicam que diversas etnias e   Coordenações Regionais  enfrentam reduções significativas na disponibilidade de água no horizonte 2015-2040, com destaque para ocorrências críticas e acentuadas, com diminuições superiores a 30% nas terras das etnias Guarani Kaiowá, Terena, Guarani Nhandeva e Mẽbêngôkre (Kayapó), além das regiões sob responsabilidade das Coordenações Araguaia Tocantins e Baixo São Francisco. Também são observadas diminuições importantes, ainda que menos intensas, em outras áreas classificadas como “Alerta” ou “Cautela”.

No caso dos eventos extremos de cheias, os riscos são igualmente elevados, com alta frequência de situações emergenciais registradas entre as etnias Guarani Mbya, Tikúna e Guarani Kaiowá, e nas Coordenações Regionais Campo Grande e Araguaia Tocantins.

Os dados apontam que, à medida que os cenários climáticos se tornam mais severos, os impactos tornam-se ainda mais evidentes e generalizados, exigindo políticas públicas específicas e adaptativas para garantir a segurança hídrica e climática das populações indígenas, em sintonia com os instrumentos previstos nos Planos Temáticos de Adaptação voltados a esses povos.

As Coordenações Regionais compõem a estrutura organizacional da Fundação Nacional dos Povos Indígenas cujas principais competências são: coordenar, implementar e monitorar as ações de proteção territorial e a promoção dos direitos socioculturais dos povos indígenas; implementar ações de promoção ao desenvolvimento sustentável, etnodesenvolvimento e proteção social dos povos indígenas; e preservar e promover a cultura indígena.

Para as comunidades quilombolas, o estudo revela um quadro de alta vulnerabilidade hídrica, com destaque para os estados da Bahia e do Pará, que concentram o maior número de comunidades em situação emergencial, com acentuada diminuição na disponibilidade hídrica já no período 2015-2040. Maranhão, Goiás, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais também apresentam um número expressivo de comunidades em condição Crítica ou de Alerta, indicando reduções importantes na oferta de água.

A situação se agrava à medida que os cenários de emissão se intensificam, tornando os impactos ainda mais pronunciados ao longo do tempo. Em relação aos eventos de cheias, Maranhão, Bahia, Pará, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul destacam-se com numerosas comunidades em risco elevado, nas categorias Crítica e Emergencial, evidenciando a necessidade urgente de políticas regionais de adaptação. Essas medidas devem incluir infraestrutura hídrica, sistemas de alerta precoce e soluções de armazenamento de água, com foco nas regiões Norte e Nordeste, onde os riscos climáticos são mais intensos. O cenário reforça a urgência de estratégias públicas específicas e coordenadas para garantir a resiliência e a segurança hídrica das populações quilombolas frente aos efeitos da mudança do clima.