
da água

esportes náuticos e ecoturismo.


de passageiros e de cargas,
conectando regiões.

Efluentes

Humano Urbano

Humano Rural





Usos da água
O Brasil apresenta expressiva disponibilidade hídrica, o que configura uma condição estratégica para o país. No entanto, essa abundância não se distribui de forma homogênea no território nacional, nem ao longo do tempo. As regiões com maior demanda por água nem sempre coincidem com aquelas de maior oferta, e a infraestrutura de captação, armazenamento e distribuição apresenta importantes assimetrias, o que impõe desafios à gestão eficiente e equitativa dos recursos hídricos.
O uso consuntivo setorial da água no Brasil é destinado principalmente para as atividades de irrigação, abastecimento humano (urbano e rural), abastecimento animal, indústria, geração termelétrica e mineração. O conhecimento sobre esses usos vem sendo continuamente ampliado por meio de estudos específicos, com incremento contínuo das bases de dados, cujas informações subsidiam a formulação, a implementação e o monitoramento de políticas públicas de recursos hídricos.
A
Base Nacional de Referência de Usos Consuntivos da Água consolida as estimativas dos principais usos setoriais da água no Brasil. Em 2024, foi publicada a segunda edição do
Manual de Usos Consuntivos da Água no Brasil, com revisão de conceitos, metodologias e a atualização do diagnóstico e do prognóstico das demandas hídricas no país de 1931 a 2040.
A Base Nacional de Referência de Usos Consuntivos da Água desempenha papel estratégico no apoio ao planejamento e à gestão dos recursos hídricos, subsidiando planos de bacia e estimativas de balanços hídricos, além de fornecer indicadores relevantes para órgãos gestores e usuários em regiões com potencial de conflito pelo uso da água. Também contribui para as agendas setoriais, ao oferecer um panorama atualizado e prospectivo dos usos da água e sua relação com a disponibilidade nas bacias hidrográficas, orientando análises de risco e de sustentabilidade hídrica dos empreendimentos.
O uso é considerado consuntivo quando a água é retirada e consumida parcial ou totalmente no processo a que se destina, representando, naquele manancial e naquele tempo, uma indisponibilidade para outros usos. Esses usos são analisados a partir de três componentes: a retirada, que se refere à água total captada para um uso; o consumo, que corresponde à água retirada que não retorna diretamente aos corpos hídricos; e, o retorno, parte da água retirada para um determinado uso que retorna para os corpos hídricos.
Já os usos não consuntivos, como geração hidrelétrica, navegação, pesca, recreação, turismo e lazer, não envolvem a captação direta da água, mas estão diretamente condicionados à sua disponibilidade em quantidade e qualidade adequadas e interligados na bacia hidrográfica ou em sistemas hídricos específicos aos demais usos.
Evolução das Demandas no Brasil
A demanda de água no Brasil tem evoluído de forma significativa ao longo do tempo, refletindo as transformações econômicas e sociais do país. O crescimento populacional, a urbanização acelerada, a intensificação das atividades agropecuárias e industriais contribuíram para o aumento progressivo das retiradas de água nas últimas décadas. Atualmente, os setores de abastecimento urbano, agricultura irrigada e indústria de transformação respondem por aproximadamente 82% das retiradas totais.
A evolução histórica das retiradas de água para usos consuntivos no Brasil evidencia um crescimento expressivo ao longo das últimas décadas. Entre 1940 e 1980, as retiradas aumentaram, em média, 554 bilhões de litros por ano. Esse ritmo se intensificou entre 1980 e 2000, alcançando uma média anual de 831 bilhões de litros, e avançou para 921 bilhões de litros entre os anos de 2000 e 2024. Apesar da desaceleração econômica observada na década de 2010 e dos impactos da pandemia de COVID-19, as projeções indicam uma tendência de continuidade no crescimento da demanda hídrica. Até 2040, estima-se um acréscimo de 1 trilhão e 207 bilhões de litros, com destaque para a contribuição da agricultura irrigada nesse cenário de expansão.
A demanda por água está diretamente relacionada a fatores econômicos, ambientais e climáticos. O crescimento populacional amplia a necessidade de água, tanto para o consumo direto quanto para a produção de bens e serviços. O desenvolvimento econômico, por sua vez, impulsiona o uso da água nos setores produtivos, especialmente na agricultura e na indústria.
Esses movimentos são influenciados por variações climáticas, como secas prolongadas ou anomalias de temperatura, que afetam o consumo direto e a produção, em especial de alimentos. A redução na disponibilidade de água doce em determinadas regiões e as alterações nos padrões de precipitação são preocupações crescentes, uma vez que afetam a capacidade dos sistemas de atender às necessidades hídricas da população e da economia.
Essas tendências evidenciam o aumento da pressão sobre os recursos hídricos em diferentes regiões do país, o que reforça a importância de estratégias de gestão adaptadas às especificidades de cada UGRH. A análise territorial detalhada permite identificar áreas críticas, apoiar decisões de alocação e regulação e orientar políticas regionais e investimentos em infraestrutura hídrica, com foco na segurança hídrica e nos desafios impostos pela mudança climática.
Usos Consuntivos da Água nas Unidades de Gestão de Recursos Hídricos
A análise das retiradas de água nas Unidades de Gestão de Recursos Hídricos (UGRHs) permite identificar importantes padrões espaciais de uso e destacar regiões com maior pressão sobre os recursos hídricos. Entre as UGRHs com maiores demandas de água em 2024, destacam-se as unidades do São Francisco, Uruguai, Paraná, Tocantins-Araguaia, Paranaíba, Grande e as Bacias Litorâneas Estaduais do Rio Grande do Sul, com elevados volumes associados à atividade agrícola. No uso para irrigação, destacam-se ainda as UGRHs do Verde Grande, Pardo e da Lagoa Mirim/Chuí, onde essa atividade representa mais de 80% das retiradas totais de água.
O abastecimento humano urbano concentra-se principalmente em UGRHs com alta densidade populacional e forte urbanização, como Bacias Litorâneas Estaduais do Rio de Janeiro, Paraná, São Francisco, Paraíba do Sul e PCJ. Já os usos industriais se sobressaem em bacias com maior desenvolvimento econômico e presença de polos produtivos, como nas UGRHs do Paraná, Grande, Paranaíba e Paranapanema.
Em relação ao uso animal, observa-se a forte presença da pecuária em UGRHs com grandes extensões territoriais, particularmente nas regiões Centro-Oeste e Norte, destacando-se, em termos absolutos: Tocantins-Araguaia, Madeira, Paraná, Paraguai e Paranaíba. Em termos relativos, observam-se percentuais elevados de participação do uso animal nas UGRHs Xingu e Interbacias Xingu-Tapajós, Madeira e Interbacias Madeira-Purus e Purus e Interbacias Purus-Juruá, indicando a predominância dessa finalidade em regiões com baixa densidade populacional.
A projeção das demandas hídricas para 2040 revela as maiores tendências de crescimento entre as UGRHs. Destacam-se, com maiores aumentos absolutos nas retiradas totais de água, as UGRHs: São Francisco (+137,4 m³/s), Paranaíba (+76,7 m³/s), Tocantins-Araguaia (+65,8 m³/s), Uruguai (+31,6 m³/s), Grande (+31,4 m³/s), Paranapanema (+27,3 m³/s), Paraná (+24,0 m³/s), Paraíba do Sul (+21,6 m³/s) e Doce (+19,8 m³/s). Esses aumentos estão fortemente relacionados à expansão da agricultura irrigada e à dinâmica de crescimento urbano-industrial dessas regiões.
Usos Consuntivos da Água nas Unidades da Federação
Em 2024, as retiradas totais de água para usos consuntivos setoriais no Brasil mostram maiores demandas para a Região Sudeste, seguidas pelas regiões Nordeste, Sul, Centro-Oeste e Norte.
As maiores demandas de retirada de água no Brasil por unidades da federação ocorrem nos estados do Rio Grande do Sul, Minas Gerais, São Paulo e Bahia, que juntos respondem por mais de 50% do total nacional de usos consuntivos em 2024.
O Rio Grande do Sul se destaca pela irrigação de arroz por inundação. Minas Gerais apresenta um perfil diversificado de uso, com forte presença da irrigação por pivôs centrais e demandas urbanas expressivas em centros regionais e na Região Metropolitana de Belo Horizonte. São Paulo se destaca pelo elevado volume destinado ao abastecimento urbano, refletindo sua condição de estado mais populoso do país, com grande concentração de centros urbanos e polos industriais. Na Bahia, o crescimento da agricultura irrigada, especialmente no Oeste e no Vale do São Francisco, sustenta a alta demanda por água, impulsionada por culturas de grande valor econômico.
Outros destaques incluem Goiás, Mato Grosso, com demandas concentradas na agricultura irrigada e Rio de Janeiro, no abastecimento urbano. Santa Catarina apresenta usos marcados pela irrigação e por atividades industriais, enquanto Pará, Pernambuco, Mato Grosso e Espírito Santo possuem demandas significativas impulsionadas por uma combinação de usos agrícolas, urbanos e industriais.
Nos estados do Semiárido, como Ceará, há predominância da irrigação, mesmo em um contexto de maior restrição hídrica sazonal, o que reforça a importância da eficiência no uso da água nessas regiões.
Nas unidades da federação de menor participação relativa, os volumes retirados são reduzidos, reflexo de menores densidades populacionais e limitada atividade irrigada. Embora o Distrito Federal represente uma parcela reduzida das retiradas de água em nível nacional, apresenta demanda significativa devido à concentração urbana e à presença de atividades agrícolas intensivas em uma área territorial relativamente pequena.
Cada uso consuntivo da água apresenta uma dinâmica particular, influenciada por uma combinação de fatores socioeconômicos, climáticos, demográficos e tecnológicos, o que exige abordagens regionais específicas para o planejamento e a gestão dos recursos hídricos no país.
Agricultura Irrigada
A agricultura irrigada é o maior uso consuntivo da água no Brasil, representando aproximadamente metade da água retirada dos corpos hídricos no país. No território brasileiro, a expansão acelerada dessa atividade teve início nas décadas de 1970 e 1980, intensificando-se a partir dos anos 2000 e atingindo ritmo recorde de crescimento na última década. Esse crescimento reflete a importância da atividade para a produção agrícola nacional e o seu papel estratégico na segurança alimentar do país, ao possibilitar a suplementação do regime de chuvas em áreas com escassez hídrica mais acentuada, como o Semiárido, e em regiões sujeitas a estiagens sazonais, como a região central do Brasil.
Os impactos da mudança climática impõem desafios adicionais à agricultura irrigada. De acordo com o estudo Impacto da Mudança Climática nos Recursos Hídricos no Brasil, publicado em 2024, pela ANA, para a agricultura irrigada, os efeitos das mudanças no clima envolvem o desafio de lidar com oferta de água mais incerta — em função de extremos como secas e cheias — ao mesmo tempo em que se projeta uma demanda potencialmente maior por água, devido ao aumento da temperatura e à elevação das taxas de evapotranspiração.
Os principais estudos sobre a agricultura irrigada e a interface com os recursos hídricos constam no Atlas Irrigação: uso da água na agricultura irrigada, em sua 2ª edição publicada pela ANA, em 2021. Em 2024, a ANA lançou o Portal de Irrigação do SNIRH, que organiza os conteúdos e serviços disponíveis, como mapas e painéis interativos, publicações, tabelas e dados geoespaciais, notas técnicas e ferramentas de consulta aos dados relacionados à irrigação. Esta abordagem setorial busca facilitar a disseminação do conhecimento para a gestão da água e a sociedade em geral.
De acordo com os levantamentos atualizados na segunda edição do Manual de Usos Consuntivos da Água no Brasil, em 2022, o Brasil possuía 8,6 milhões de hectares (Mha) equipados para irrigação, dos quais 2,9 Mha correspondiam à fertirrigação com água de reúso e os 5,7 Mha restantes, à irrigação com água proveniente de mananciais.
A atividade irrigada ocorre atualmente em todas as regiões do país, com destaque para os tradicionais polos da Região Sul, onde predomina o arroz irrigado por inundação, e para os polos mais recentes localizados no Oeste Baiano, no Triângulo e Noroeste Mineiros, no Semiárido Nordestino, em áreas do Tocantins e no interior de São Paulo, especialmente voltados à produção de grãos e cana-de-açúcar. Como resultado dessa distribuição territorial, com exceção da Região Norte, as demais regiões apresentam demandas relevantes de água para irrigação. Em 2024, a estimativa de retirada hídrica total para a agricultura irrigada foi de 1.056,30 m³/s, o que corresponde a 50,3% da retirada total nesse ano.
O potencial físico-hídrico para expansão da agricultura irrigada no Brasil — considerando características naturais como disponibilidade de água, tipos de solo e clima — é estimado em 55,8 Mha. Já o potencial efetivo, com viabilidade de desenvolvimento a curto e médio prazos, corresponde a 13,7 Mha, concentrados principalmente nas regiões Centro-Oeste (45%), Sul (31%) e Sudeste (19%).
Dada a intensa dinâmica do uso da água na agricultura irrigada, é indispensável manter o acompanhamento sistemático de indicadores que apoiem tanto a gestão pública quanto as ações de manejo hídrico pelos usuários desse setor. Em 2024, com a segunda edição do Manual de Usos Consuntivos da Água no Brasil, as séries de demandas de água para irrigação foram atualizadas, incorporando os dados e os aprimoramentos metodológicos divulgados no Boletim SNIRH nº 4, que trata do levantamento da agricultura irrigada por pivôs centrais no Brasil no período de 1985 a 2022; e, no Boletim SNIRH nº 5, que apresenta o mapeamento do arroz irrigado no Brasil para a safra 2022/2023.
O arroz irrigado é responsável pela maior parcela do uso de água para irrigação no Brasil. A média nacional de retirada de água para o arroz irrigado é de 8,3 mil m³ por hectare, o que corresponde a cerca de 1.050 litros de água para cada quilo de arroz produzido. Esses valores refletem a elevada intensidade hídrica da cultura, com média anual de retirada para irrigação estimada em aproximadamente 350 m³/s, sendo o método de inundação contínua predominante.
Na safra 2022/2023, o mapeamento atualizado da área plantada com arroz irrigado no país indicou um total de 1,155 milhão de hectares (Mha), com forte concentração geográfica nos estados do Rio Grande do Sul (72,3%), Santa Catarina (12,2%) e Tocantins (8,9%). Os estados do Paraná, Goiás, Roraima e Mato Grosso do Sul responderam pela maior parte dos demais 6,6% da área de arroz irrigado no país.
Entre os municípios produtores de arroz irrigado com maior área plantada destacam-se: Uruguaiana, Santa Vitória do Palmar, Itaqui e Alegrete, no Rio Grande do Sul, e o município de Lagoa da Confusão, em Tocantins, evidenciando a concentração regional da rizicultura irrigada em áreas com infraestrutura consolidada e tradição produtiva.
A irrigação por pivôs centrais constitui uma das principais formas de uso da água para a agricultura irrigada no Brasil, sendo caracterizada pela aplicação de água de forma localizada e controlada, com maior eficiência e adaptabilidade para culturas temporárias de ciclo curto, como soja, milho, feijão e algodão.
Segundo o Boletim SNIRH nº 4, em 2022, o Brasil superou a marca de 30 mil sistemas de pivôs centrais, totalizando uma área equipada de aproximadamente 1,92 milhão de hectares (Mha). Esse valor representa um acréscimo expressivo de 1,43 milhão de hectares (+292%) quando comparado a 2000.
A distribuição da área equipada com pivôs centrais no território nacional mostra forte concentração geográfica. Seis estados — Minas Gerais (29,2%), Goiás (16,3%), Bahia (15,3%), São Paulo (12,9%), Rio Grande do Sul (10,2%) e Mato Grosso (8,6%) — concentram 92,5% da área total irrigada com esse sistema. Do ponto de vista dos biomas, destaca-se o Cerrado, que abriga 70,4% da área equipada (1,35 Mha), seguido pela Mata Atlântica (11,1%), Pampa (9,4%), Caatinga (5,4%) e Amazônia (3,7%).
A análise municipal mostra que os 30 maiores municípios irrigantes por pivôs centrais respondem por 41,2% da área total equipada. Os cinco principais em extensão irrigada por esse método são os municípios de Paracatu e Unaí (MG), Cristalina (GO) e São Desidério e Barreiras (BA), demonstrando a concentração dessa prática em polos agroindustriais com tradição em irrigação e elevado grau de tecnificação.
Entre os Polos Nacionais de Agricultura Irrigada, identificados no Atlas Irrigação e que se distribuem em 7 unidades federativas, 9 possuem como tipologia predominante o arroz por inundação, e em 15 predominam os pivôs centrais. Esses polos concentram 50% da área irrigada e 60% da demanda hídrica atual.
Mais da metade (57%) da área equipada com pivôs no Brasil está em polos de irrigação, nos quais a produção de grãos (como soja, milho e feijão) e algodão é predominante. Em relação ao arroz irrigado, os polos de irrigação identificados concentram 90,4% da área total, com dois dos maiores polos representando 40,5% dessa área: Quaraí/Ibicuí/Icamaquã (22,6%) e Lagoa dos Patos (17,9%).
De acordo com o Atlas Irrigação, estima-se que 802 mil hectares irrigados são para a cultura da cana-de-açúcar, especialmente em regiões com maiores restrições hídricas ou para incremento da produtividade. A irrigação dessa cultura é empregada principalmente em três modalidades: plena, suplementar e salvamento.
A modalidade salvamento, de menor intensidade de uso da água, tem maior relevância na Região Nordeste, especialmente no litoral, onde a cultura é tradicional e ocupa áreas inseridas em bacias hidrográficas com baixa disponibilidade hídrica. Já os manejos pleno e suplementar, mais intensivos, são responsáveis por apenas 25% da área irrigada com cana, mas por cerca de 80% do volume total de água utilizado para irrigação da cultura no país.
Em termos espaciais, a irrigação da cana-de-açúcar está fortemente concentrada em estados como Alagoas, Minas Gerais, Bahia e Goiás, com destaque para os municípios de Coruripe (AL), João Pinheiro e Paracatu (MG), Juazeiro (BA) e Vila Propício (GO). Além da irrigação convencional, a cana-de-açúcar se destaca pelo expressivo uso da fertirrigação, prática mais presente no Centro-Sul, especialmente em São Paulo, Minas Gerais e Goiás, onde predomina o setor sucroenergético e existe maior infraestrutura para o reaproveitamento da vinhaça na lavoura.
A cultura do café mantém papel estratégico na agricultura brasileira, especialmente pela relevância econômica e social. Estima-se que área irrigada com café é de aproximadamente 472 mil hectares, distribuídos principalmente entre Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia, com destaque para os municípios de Monte Carmelo e Patrocínio (MG), Rio Bananal, Vila Valério e São Mateus (ES). Além dessas regiões tradicionais, Rondônia tem se consolidado como uma das principais fronteiras de expansão da cafeicultura irrigada na Amazônia Legal.
Abastecimento Humano
O abastecimento humano urbano representa o segundo maior uso consuntivo de água no Brasil, caracterizando-se pela concentração espacial em áreas densamente povoadas. Essa configuração impõe crescente pressão sobre mananciais e sistemas produtores de água, exigindo soluções cada vez mais complexas, integradas e resilientes para garantir a segurança hídrica no abastecimento.
O crescimento populacional, aliado à expansão urbana e à mudança em padrões de consumo, tem intensificado a demanda por água para essa finalidade, o que frequentemente resulta em situações de conflito pelo uso do recurso hídrico e amplia a necessidade de investimentos estruturantes em captação, tratamento e distribuição. Além disso, o cenário de mudança climática projeta um futuro de maior incerteza quanto à oferta hídrica, aumentando o desafio de manter a qualidade e a disponibilidade da água para a população, especialmente em regiões metropolitanas.
A estimativa de retirada de água para o abastecimento humano urbano, em 2024, é de aproximadamente 468 m³/s, cerca de 22% da retirada total no país. Os dados evidenciam uma forte concentração desse uso nos estados mais populosos: São Paulo (26%), Rio de Janeiro (11%), Minas Gerais (10%) e Rio Grande do Sul (5%). Entre as regiões brasileiras, destaca-se o Sudeste, que concentra 49% da retirada de água para as cidades, seguido das regiões Nordeste (21%), Sul (13%), Norte (9%) e Centro-Oeste (8%).
Em 2024, a ANA lançou uma versão atualizada do aplicativo
Atlas Águas e Esgotos, disponível para dispositivos móveis e navegadores. A ferramenta permite o acesso facilitado aos dados do Atlas Águas – Segurança hídrica do abastecimento urbano e do Atlas Esgotos para os 5.570 municípios brasileiros.
De acordo com o Atlas Águas, publicado pela ANA em 2021, 3.125 mananciais superficiais são utilizados no Brasil para o abastecimento de sedes urbanas. Aproximadamente 85% da população urbana depende desses mananciais para o fornecimento de água, incluindo grandes centros urbanos, como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Fortaleza e Porto Alegre. Os demais 15% da população urbana são atendidos por mananciais subterrâneos.
Entre os municípios brasileiros, 43% das sedes urbanas são abastecidas exclusivamente por mananciais superficiais, enquanto 14% contam com sistemas mistos, mas com predominância de fontes superficiais. O predomínio do uso de mananciais superficiais, com mais de 70% das sedes urbanas atendidas, é mais evidente nos estados do Espírito Santo, Pernambuco, Paraíba, Bahia, Rio de Janeiro e Rondônia.
Por outro lado, 40% das sedes urbanas do país utilizam exclusivamente águas subterrâneas, enquanto 3% contam com sistemas mistos em que essas fontes são predominantes. Esse padrão de abastecimento é especialmente relevante em Mato Grosso do Sul, Piauí, Maranhão, Pará e Amazonas.
Entre os principais mananciais superficiais de abastecimento urbano, destaca-se o Rio São Francisco como o de maior amplitude de atendimento, com 186 sedes atendidas, incluindo municípios na bacia e aqueles contemplados pela transposição de suas águas para os estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, correspondendo a 4,3 milhões de habitantes em áreas urbanas (Atlas Águas, 2021). Desses, 4,1 milhões estão no Nordeste, representando 25% da população urbana da região Semiárida.
Outras transferências de água entre bacias também desempenham papel relevante no reforço da disponibilidade hídrica para captação. O Sistema Cantareira, que atende cerca de 7,5 milhões de pessoas na Região Metropolitana de São Paulo, é suprido, em grande parte, por vazões oriundas da bacia dos Rios Piracicaba-Capivari-Jundiaí (PCJ), por meio de uma complexa rede de transposições entre bacias.
Um exemplo importante é o do Rio Paraíba do Sul que tem parte de suas águas transpostas pelo Sistema de Transposição Santa Cecília, localizado em Barra do Piraí (RJ), para alimentar o Rio Guandu, cujo sistema é responsável por garantir o abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
Em relação ao uso de mananciais subterrâneos para abastecimento urbano, as maiores vazões explotadas são observadas na Região Sudeste, com aproximadamente 43% do total retirado, seguida pelas regiões Nordeste (21%), Sul (15%), Norte (13%) e Centro-Oeste (7%). Na Região Norte, 57% das sedes e 27% da população urbana (3,88 milhões) são abastecidas exclusivamente por manancial subterrâneo, e na Região Nordeste, 33% das sedes e 18% da população urbana (8 milhões, maior contingente dentre as regiões).
O abastecimento humano rural, em comparação ao urbano, apresenta um cenário significativamente diferente, representando apenas 1,5% do total de água captada em 2024 (30,76 m³/s). A demanda por água para esse tipo de abastecimento segue uma trajetória de declínio, explicada principalmente pela redução da população residente no campo. Ainda assim, responde pelo abastecimento de aproximadamente 30 milhões de pessoas, muitas concentradas em áreas com baixa disponibilidade hídrica.
A avaliação da vulnerabilidade dos mananciais realizada no Atlas Águas aponta que, embora 56% das sedes urbanas contem com mananciais classificados como não vulneráveis, 44% apresentam algum grau de vulnerabilidade, sendo que 5% enfrentam alta vulnerabilidade, o que representa um contingente aproximado de 6 milhões de habitantes.
A maior parte dos municípios brasileiros (4.624 sedes) é abastecida por sistemas isolados (mananciais que atendem um único município), os quais atendem aproximadamente 52% da população do país. Já os sistemas integrados (mananciais que atendem mais de um município), embora presentes em menos municípios (943 sedes), respondem pelo atendimento de 48% da população e são, em geral, adotados em contextos em que a capacidade local de produção de água é insuficiente para suprir o consumo, como ocorre em diversos centros metropolitanos e em áreas do Semiárido.
De 2000 a 2024, observou-se crescimento de 32% na retirada de água para o abastecimento urbano. Em contrapartida, o uso da água para abastecimento rural apresentou tendência oposta no mesmo período, com uma queda de cerca de 20%.
Apesar da tendência geral de queda da população rural, alguns municípios com instalação ou ampliação de empreendimentos agroindustriais e de mineração têm apresentado crescimento de vilas e aglomerados rurais, com aumento na demanda de água por abastecimento.
Em relação às fontes de abastecimento, no meio rural, as fontes alternativas desempenham um papel fundamental para assegurar o acesso à água. Essas alternativas incluem soluções coletivas ou individuais, como poços, cisternas, nascentes, fontes, rios, açudes, córregos, igarapés e abastecimento por carro-pipa, sendo essenciais especialmente em localidades isoladas ou com escassez hídrica crônica.
Em 2024, cerca de 68% da população residente em domicílios na área rural utilizava fontes alternativas de abastecimento, enquanto 32% era abastecidos por rede geral de distribuição. O uso de fontes alternativas pela população rural é mais expressivo nas regiões Centro-Oeste (88,2%), Sudeste (82,3%) e Norte (78,3%), refletindo tanto a dispersão territorial dos domicílios quanto limitações de cobertura da infraestrutura convencional.
O Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), em continuidade ao Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), entrou em operação em 2024. Segundo dados do Sistema, em 2023, cerca de 83% da população brasileira contava com acesso à rede de abastecimento de água, sendo o atendimento significativamente maior nas áreas urbanas, alcançando mais de 93% da população, enquanto na zona rural o índice corresponde a aproximadamente 24%.
Entre as regiões do país, o Sudeste apresenta o melhor índice de cobertura da população com rede de abastecimento de água (90,5%), seguido pelas regiões Centro-Oeste (88,3%), Sul (87,6%), Nordeste (74,0%) e Norte (60,9%), o que mostra as disparidades significativas na cobertura entre os diferentes territórios do país.
As cheias extremas ocorridas entre o final de abril e maio de 2024 no Rio Grande do Sul provocaram impactos significativos sobre os sistemas de abastecimento de água no estado, tanto nas áreas urbanas quanto nas zonas rurais. Os principais mananciais superficiais utilizados para abastecimento no Rio Grande do Sul são os Rios Jacuí, Taquari, dos Sinos, Gravataí e o Guaíba, que fazem parte de importantes bacias hidrográficas atingidas pelas cheias históricas ocorridas no estado.
Outro aspecto relevante se refere às perdas na rede de distribuição de água, sobretudo diante do aumento na frequência de eventos de escassez hídrica e do risco de contaminação da água tratada. Em 2023, segundo dados do SINISA, as perdas totais no Brasil foram de 40,3%, indicando que quase metade da água produzida não chega ao consumidor final. A redução dessas perdas é fundamental para garantir o acesso seguro e sustentável à água potável, especialmente em um contexto de crescimento contínuo da demanda e de recursos hídricos cada vez mais pressionados.
Lançamento de Efluentes
O lançamento de efluentes nos corpos d’água, predominantemente de esgotos domésticos, indisponibiliza a água para outros usos devido à poluição hídrica. O déficit de coleta e tratamento de esgotos nas cidades brasileiras tem resultado em uma parcela significativa de carga poluidora chegando aos corpos d’água, trazendo implicações negativas à saúde da população, aos ecossistemas aquáticos e aos usos múltiplos dos recursos hídricos.
De acordo com dados do SINISA, em 2023, 59,7% da população no Brasil contava com acesso à rede de coleta de esgotos, sendo a Região Norte com o menor atendimento (22,8%) e a Região Sudeste com o maior (80,8%). No meio urbano, a cobertura da rede alcançava 67,5% da população, enquanto na área rural esse percentual era de 5,6%.
No Brasil, há registro de 3.668 Estações de Tratamento de Esgotos (ETE), localizadas em 2.007 municípios. Do volume total de esgoto gerado no país em 2023 (9.960 hm³), 49,4% ou 4.920 hm³ foi tratado em ETEs. As ETEs atendem basicamente as sedes municipais, enquanto as soluções individuais atendem principalmente a população rural e os pequenos aglomerados urbanos. Com relação ao uso de fossas sépticas não ligadas à rede no meio rural, as regiões que mais se destacam são: Sul (56,2%), Centro-Oeste (37,2%) e Sudeste (36,3%).
Para incentivar a implantação de estações de tratamento de esgotos com a finalidade de reduzir os níveis de poluição dos recursos hídricos no país, a ANA criou o Programa Despoluição de Bacias Hidrográficas (Prodes), que remunera o esgoto efetivamente tratado, sem financiar obras ou equipamentos, incentivando o tratamento de esgoto com base em resultados. Em 23 anos de atividade, esse Programa realizou contrato com 82 ETEs, em 63 municípios.
Os sistemas de drenagem de águas pluviais urbanas fazem parte da infraestrutura urbana projetada para coletar e transportar a água da chuva, com o objetivo principal de prevenir inundações, enxurradas e alagamentos nas cidades. Esses sistemas estão diretamente relacionados a outros componentes do saneamento básico, como o abastecimento de água, o esgotamento sanitário, a limpeza urbana e o manejo de resíduos sólidos. A coleta adequada de resíduos e tratamento de esgotos são fundamentais para evitar que as águas pluviais se tornem vetores de doenças e de poluição dos corpos hídricos.
O SINISA mostrou que, em 2023, dos 4.958 municípios que participaram da coleta de dados, 2.005 (40,4%) possuem sistema exclusivo para drenagem (separador), 624 (12,6%) têm sistema unitário (misto com esgotamento sanitário) e 718 (14,5%) possuem sistema combinado, quando os sistemas exclusivo e unitário coexistem. Em 1.611 (32,5%) dos municípios, não há qualquer sistema de drenagem. Há 1.742 municípios cadastrados como críticos, sendo que 724 contam com sistemas de alerta de riscos hidrológicos e 1.523 têm mapeamento de riscos de inundações.
As medidas compensatórias são elementos do sistema de drenagem projetados para reduzir o escoamento superficial das águas pluviais e minimizar os impactos da impermeabilização do solo em áreas urbanas. Por meio da infiltração da água no solo ou do armazenamento temporário, as medidas compensatórias contribuem para mitigar eventos hidrológicos extremos e para melhorar a qualidade da água. De acordo com o SINISA, em 2023, existiam 8.991 km de vias urbanas, em 375 municípios, cujos sistemas de drenagem utilizam medidas compensatórias como pavimentos permeáveis, valas, trincheiras ou poços de infiltração, faixas gramadas, dentre outras.
Já as infraestruturas de Drenagem e Manejo das Águas Pluviais Urbanas (DMAPU) compreendem estruturas de armazenamento, como reservatórios, bacias de detenção e retenção, piscinões e tanques, além de parques lineares implantados ao longo de cursos d’água urbanos. Essas soluções têm por objetivo amortecer as vazões de cheias e prevenir e minimizar a ocupação irregular de áreas de várzeas. Segundo dados do SINISA, em 2023, 97 municípios possuíam estruturas de armazenamento e 412 possuíam parques lineares, que abrangem 3,83% da extensão dos cursos d’água em áreas urbanas.
Indústria de transformação e extrativa
O Brasil possui um extenso e diversificado parque industrial que abrange desde a produção de bens de consumo cotidiano até a fabricação de insumos estratégicos e equipamentos de alta complexidade tecnológica. A demanda por água no setor industrial é fortemente influenciada pelo tipo de produto ou serviço ofertado e, sobretudo, pelos processos produtivos empregados.
A intensidade do uso da água na indústria varia conforme uma combinação de fatores, incluindo a natureza do processo industrial, o tipo e a escala de produção, o nível de automação e as tecnologias utilizadas, além da adoção de boas práticas e do grau de maturidade da gestão ambiental e hídrica da indústria.
A indústria pode ser classificada em extrativa, aquela que extrai da natureza recursos e insumos sem alterar suas características, e de transformação, aquela que realiza a transformação da matéria-prima em um produto final ou intermediário. Estima-se que, em 2024, foram retirados 207,28 m³/s para a indústria de transformação e de 28,55 m³/s para a indústria extrativa mineral.
A indústria de transformação representou cerca de 10% do total de água retirada em 2024. A distribuição regional das retiradas de água para fins industriais revela forte concentração no Sudeste, responsável por 45% do total da demanda, principalmente nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Essa predominância está associada à diversidade e ao porte do parque industrial nessa região, que inclui setores intensivos em uso de água, como os de alimentos e bebidas, papel e celulose, metalurgia, derivados de petróleo e biocombustíveis. Esses setores representam cerca de 80% da demanda por tipologia industrial.
O Sul, com 18% das retiradas, se destaca como a segunda região mais industrializada e a terceira em retirada de água para indústria, com forte presença de agroindústrias voltadas ao processamento de matérias-primas agrícolas. No Nordeste, que responde por 21% das retiradas, predominam atividades industriais ligadas à cadeia têxtil e ao setor sucroenergético. Já as regiões Norte (2%) e Centro-Oeste (14%) apresentam menor densidade industrial, mas concentram agroindústrias com alta demanda hídrica.
O uso da água na mineração, ou indústria extrativa mineral, está associado a diversas etapas do processo produtivo, como desmonte hidráulico, rebaixamento do nível de minas, umectação de vias e pátios, lavagem de equipamentos e minério, descarte de rejeitos e tratamento de efluentes, entre outras. Apesar de representar uma fração relativamente pequena do volume total de água retirado no país, 1,4% do total, em 2024, a mineração caracteriza-se por apresentar elevada intensidade de consumo hídrico por unidade produzida.
Essa característica, somada à forte concentração territorial da atividade, faz com que seus impactos locais sobre mananciais sejam significativamente relevantes. Nesse contexto, destaca-se o estado de Minas Gerais, que responde por 38% das retiradas, especialmente na região do Quadrilátero Ferrífero; e o Pará, com 39%, notadamente nos municípios de Parauapebas, Canaã dos Carajás e Marabá.
O Brasil figura entre os principais produtores globais de recursos minerais como minério de ferro, bauxita, alumina, nióbio e fosfato. Além de atender ao mercado internacional, a mineração nacional também abastece cadeias produtivas internas, como a indústria de base, a agropecuária e a construção civil. Em muitos municípios, especialmente os de menor porte, a atividade mineral está voltada para o consumo local ou regional, como nos casos da extração de areia, argila, pedra britada e sal.
Conforme levantamento apresentado na segunda edição do Manual de Usos Consuntivos da Água no Brasil, entre os diferentes tipos de substâncias extraídas, o minério de ferro responde pela maior parcela das retiradas hídricas (49,8%), seguido pelos minerais não metálicos (29%), metálicos não ferrosos (15%) — com destaque para a produção de alumínio a partir da bauxita — e carvão mineral (6%). No caso dos minerais não metálicos, a maior demanda se relaciona à extração de insumos para a produção de fertilizantes, adubos e outros compostos químicos.
Geração de energia elétrica
A matriz elétrica brasileira é predominantemente renovável. Em 2000, a geração hidrelétrica representava cerca de 85% da capacidade instalada e, ao final de 2024, embora a fonte hidráulica ainda permaneça como principal, sua participação foi reduzida para 45,1%, em decorrência da diversificação da matriz e do crescimento expressivo de outras fontes, especialmente eólica, solar e da micro e minigeração distribuída ( MMGD ).
No fim de 2024, conforme dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), o Brasil alcançou uma capacidade de geração de energia em operação de 243.917 MW, sendo 109.953 MW de fontes hidráulicas, seguidas pelas térmicas com 48.897 MW, eólicas com 32.840 MW e solares com 52.227 MW, representando um aumento de 8,3% na capacidade total do sistema. Os maiores incrementos foram decorrentes da geração eólica e solar, com destaque ao avanço da MMGD.
Apesar de representarem 45% da capacidade instalada, as usinas hidrelétricas responderam por 57% da geração efetiva de eletricidade no país em 2024, segundo dados do Balanço Energético Nacional, publicado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Já as fontes eólica e solar, impulsionadas pela MMGD, contribuíram juntas com 29,7% da geração, evidenciando o aumento da diversidade e da resiliência do sistema elétrico brasileiro.
Ainda sobre a geração hidrelétrica, em dezembro de 2024, o Brasil contava com uma potência instalada total de 852 MW em Centrais Geradoras Hidrelétricas (CGH), classificadas pela ANEEL como usinas com potência igual ou inferior a 5 MW. As Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH), cuja faixa de potência vai de 5 MW a 30 MW, totalizavam 5.844 MW. Já as Usinas Hidrelétricas – UHE, com potência superior a 30 MW, respondiam por 103.196 MW de capacidade instalada. No fim de 2024, havia 1.415 empreendimentos hidrelétricos em operação no país, sendo 683 CGHs, 513 PCHs e 219 UHEs, mostrando a diversidade de escalas e a ampla presença da fonte hidráulica na matriz elétrica nacional.
A diversificação da matriz se reflete também nas características regionais da geração. O Nordeste lidera a produção eólica e solar, com fatores de capacidade elevados, enquanto a geração hidrelétrica continua dominante no Sudeste e Centro-Oeste, regiões com maior concentração de grandes reservatórios.
As séries históricas de usos consuntivos da água localizados a montante de 545 aproveitamentos hidrelétricos, publicadas nas
Resoluções ANA nº 92 e
nº 93, de agosto de 2021, foram atualizadas em maio de 2022 e encontram-se disponíveis no
Boletim SNIRH nº 1. Essas informações são estratégicas para o planejamento e a gestão integrada dos recursos hídricos. São utilizadas, por exemplo, na naturalização das vazões dos rios, que, por sua vez, é necessária para o cálculo da disponibilidade hídrica superficial do balanço hídrico de referência dos sistemas de informações sobre recursos hídricos.
Por sua vez, a geração de energia termelétrica no Brasil é composta por usinas que operam com combustíveis fósseis (12,2% da geração verificada em 2024), biomassa (7%) e energia nuclear (0,8%). De modo geral, essas usinas atuam como fontes complementares à geração hidrelétrica, sendo acionadas principalmente em períodos de escassez hídrica ou para atender à demanda adicional em horários de pico, conferindo flexibilidade e segurança operativa ao Sistema Interligado Nacional (SIN).
A demanda hídrica associada a essa modalidade de geração depende da tecnologia empregada, do tipo de combustível utilizado e, principalmente, do sistema de resfriamento adotado. Em 2024, a estimativa de retirada de água para fins termelétricos foi de 132,42 m³/s, com maior concentração de usinas que utilizam água em seus processos nas regiões Sudeste, Norte e Sul. Destacam-se, nesse contexto, os estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina, Amazonas e Pará.
Outros Usos da Água
Os demais usos da água abrangem uma diversidade de atividades que também exercem importância social, econômica e ambiental nos territórios onde são praticadas. Esses usos incluem tanto os consuntivos, como a dessedentação animal e a aquicultura em tanque escavado, quanto não consuntivos, como navegação, pesca, aquicultura em tanque-rede, turismo, recreação e lazer. Em muitas regiões, essas atividades estão fortemente associadas à subsistência de populações rurais, à preservação de modos de vida tradicionais e ao desenvolvimento do turismo e da economia local.
Pecuária
Na pecuária, o consumo de água está diretamente relacionado à espécie, ao porte e ao estágio de desenvolvimento fisiológico dos animais, além de ser influenciado pelas condições ambientais e pelo manejo adotado. Em 2024, a estimativa de retirada de água destinada à dessedentação e demais necessidades da criação animal foi de 174,9 m³/s.
A estimativa da demanda hídrica na pecuária é feita com base em coeficientes técnicos de consumo diário por animal sobre o efetivo do rebanho registrado. A edição mais recente do Manual de Usos Consuntivos da Água no Brasil (2º edição) atualizou os coeficientes técnicos e passou a incluir o volume de água adicional utilizado em atividades de manejo, como lavagem e limpeza, especialmente em sistemas de criação mais intensivos, como o de aves, suínos e vacas leiteiras.
Em termos geográficos, a demanda animal reflete as especificidades regionais da pecuária brasileira. Caprinos e ovinos se destacam no Semiárido; aves e suínos são predominantes no centro-sul do país; enquanto os bovinos concentram-se no Rio Grande do Sul, Minas Gerais, estados do Centro-Oeste e na fronteira agropecuária da Região Norte, especialmente no Pará e Rondônia. O Centro-Oeste concentra a maior parcela da demanda hídrica para esse uso (29%), seguido pelas Regiões Norte (23%), Sudeste (17%), Nordeste (17%) e Sul (14%).
Transporte Aquaviário
Em relação ao transporte aquaviário, a rede hidrográfica brasileira possui elevado potencial para a navegação interior. No entanto, a participação desse modal no transporte de cargas ainda é limitada, representando cerca de 5% do total movimentado no país. Segundo dados da Agência Nacional de Transporte Aquaviário (ANTAQ), em 2024, foram transportados 142 milhões de toneladas de cargas por vias interiores do país, com destaque para as regiões hidrográficas Amazônica e Tocantins-Araguaia, que correspondem a mais de 90% desse total.
Destaca-se a hidrovia do Solimões-Amazonas, principal via de transporte da Região Norte, que é essencial para o escoamento de cargas e o deslocamento de passageiros, além de conectar importantes centros urbanos regionais. Já a hidrovia Tocantins-Araguaia é considerada estratégica para o escoamento da produção agrícola do Centro-Oeste.
Em 2024, as principais mercadorias transportadas por vias de navegação interiores foram soja (25%), milho (20%), bauxita (15%), contêineres (9%), petróleo e derivados (7%), fertilizantes (4%), produtos químicos inorgânicos (4%) e minério de ferro (3%). Apesar do potencial, o transporte hidroviário no Brasil enfrenta limitações, como a necessidade de integração com outros modais e de investimentos em obras de infraestrutura, como eclusas e dragagens.
Nos últimos anos, com o objetivo de ampliar a eficiência logística e promover o transporte hidroviário sustentável, o governo tem avançado com concessões no âmbito do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI). A primeira concessão hidroviária do país foi firmada em 2024 para o trecho sul do Rio Paraguai, entre Corumbá e Porto Murtinho (MS), abrangendo cerca de 600 km com expectativa de triplicar a movimentação de cargas até 2030, atingindo 30 milhões de toneladas por ano. A iniciativa serve de modelo para novas concessões em estudo, como as das hidrovias dos Rios Madeira, Tocantins, Tapajós, São Francisco e da Lagoa Mirim. Esses projetos visam reduzir custos logísticos, fortalecer o escoamento da produção agrícola e industrial e ampliar a integração modal de forma sustentável.
Aquicultura
Os reservatórios, lagos e lagoas brasileiros desempenham papel fundamental na pesca e apresentam elevado potencial para a aquicultura – atividade que envolve o cultivo de organismos aquáticos, como peixes, crustáceos e moluscos.
A piscicultura em águas da União, desenvolvida majoritariamente em tanques-rede instalados em reservatórios de usinas hidrelétricas registrou uma produção total de cerca de 116 mil toneladas de pescado em 2023, conforme o Boletim da Aquicultura em Águas da União do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA). A espécie amplamente predominante é a tilápia (Oreochromis niloticus), responsável por 99,36% da produção total, seguida por pacu e tambaqui em volumes significativamente menores.
A produção está concentrada na Região Hidrográfica do Paraná, com destaque para os reservatórios das usinas Ilha Solteira (SP), Jupiá (SP/MS), Funil (MG) e Volta Grande (MG/SP). Em termos estaduais, São Paulo lidera a produção aquícola em águas da União, seguido por Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.
Turismo e Recreação
O uso das águas para fins recreativos e turísticos segue em expansão no Brasil, impulsionado por atividades como pesca esportiva, turismo náutico e ecoturismo. A pesca esportiva é expressiva nas bacias Amazônica e do Paraguai, com destinos renomados como Barcelos (AM) e Cáceres (MT). Já o turismo náutico se desenvolve em rios, lagos e reservatórios com infraestrutura para navegação e prática de esportes aquáticos, e em alguns cursos d’água, cujas praias formadas durante o período de seca dos rios, são utilizadas para o banho. Os rios Araguaia, Tocantins e Tapajós são exemplos de rios de grande relevância para o turismo.
O ecoturismo no Brasil está fortemente associado às riquezas naturais das principais bacias hidrográficas do país, com foco em cachoeiras, corredeiras, grutas e nascentes. Entre os principais polos destacam-se Bonito (MS), na Bacia do Paraguai, reconhecido pelas águas cristalinas e rica biodiversidade aquática; Chapada dos Veadeiros (GO), inserida na Bacia do Tocantins-Araguaia, com cânions e cachoeiras no Cerrado; e a Chapada Diamantina (BA), na Bacia do São Francisco, marcada por trilhas e vales profundos.
Essas regiões combinam alto valor cênico e ecológico com o uso direto dos recursos hídricos para atividades recreativas, sendo, por isso, um uso que demanda proteção da vegetação nativa e a excelente qualidade das águas. A balneabilidade, medida das condições sanitárias das águas destinadas à recreação de contato primário, é essencial para garantir a segurança dos usuários. A avaliação da qualidade da água é, portanto, fundamental para a proteção da saúde da população que utiliza esses recursos para lazer e recreação.
Reúso da Água
O reúso de água é definido pela Resolução CNRH nº 54, de 28 de novembro de 2005, como a utilização de água residuária. O reúso direto não potável pode ser destinado a fins urbanos, agrícolas, florestais, ambientais, industriais e aquícolas, devendo, em todos os casos, atender a diretrizes, critérios e parâmetros definidos pelos órgãos competentes.
Como estratégia de gestão integrada e eficiente dos recursos hídricos, o reúso de água tem ganhado relevância no Brasil, contribuindo para a sustentabilidade, ao aumentar a oferta hídrica para outros usos e reduzir a carga poluidora nos corpos d’água, especialmente em regiões com elevada escassez hídrica, onde a capacidade de diluição dos mananciais é limitada.
Apesar do seu potencial, a prática ainda é incipiente no país, em grande parte devido à ausência de política nacional específica, além de barreiras regulatórias, técnicas e institucionais. Fatores conjunturais, como exigências ambientais, cobrança pelo uso da água e lançamento de efluentes, bem como a eventual disponibilização de linhas de crédito subsidiadas, podem atuar como estímulo à adoção do reúso, sobretudo nos setores industrial, agrícola e de saneamento básico.
Um papel fundamental no reúso agroindustrial é observado no setor sucroenergético, notadamente por meio do aproveitamento dos efluentes resultantes do processamento da cana-de-açúcar na produção de açúcar e etanol. Destaca-se a vinhaça, subproduto gerado na produção de etanol, cuja aplicação no campo ocorre principalmente via fertirrigação da própria cultura da cana.
Na safra 2023/2024, o Brasil produziu 29,7 bilhões de litros de etanol, conforme dados publicados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Considerando que para cada litro de etanol são gerados cerca de 12 litros de vinhaça, estima-se uma geração de mais de 356 bilhões de litros desse efluente, parte significativa do qual é reaproveitado nas lavouras canavieiras.
Dados levantados no Boletim SNIRH nº 4 indicam que aproximadamente 3 milhões de hectares de cana-de-açúcar são fertirrigados exclusivamente com água de reúso, representando o maior exemplo de reúso de água no Brasil, tanto em volume quanto em área abrangida, consolidando-se como prática eficaz e ambientalmente segura para a sustentabilidade do setor sucroenergético.
O reúso de efluentes tratados para fins não potáveis configura importante alternativa para o uso racional da água, voltado para irrigação paisagística e agrícola, recarga de aquíferos, lavagens de ruas e veículos, entre outras. Estudo realizado pelo Ministério das Cidades e o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura – IICA em 2017, estimou que o país gerava cerca de 121 m3/s de efluente sanitário tratado adequado ao reúso. Isto equivale a um total de 3,82 trilhões de litros por ano.
A regulação de diferentes modalidades de reúso da água já é feita em alguns estados, como Ceará, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Rio Grande do Norte. No contexto nacional, a entrada em vigor do novo Marco Legal do Saneamento Básico (Lei nº 14.026/2020) conferiu à ANA a responsabilidade de estabelecer normas de referência para o reúso de efluentes sanitários tratados, assegurando a conformidade com as normas ambientais e de saúde pública vigentes.
Com base nessa atribuição, a Agência tem atuado de forma articulada com os comitês de bacias hidrográficas, estimulando a incorporação de ações de reúso nos planos de recursos hídricos. Como exemplo, cita-se o financiamento e acompanhamento do Estudo Avaliativo de Alternativas para Destinação de Efluentes Sanitários Tratados em cinco Municípios na Bacia Hidrográfica do Rio Grande que Apresentam Corpos Hídricos com Baixa Capacidade de Diluição da Carga Orgânica Remanescente do Tratamento, de 2022. Nesse estudo, concluiu-se que o reúso era uma das principais alternativas a serem adotadas nos casos estudados.
