da água
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água
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hidrológico





Coleta de Dados


Quantidade da água
O ciclo hidrológico é o processo contínuo de movimentação da água na biosfera, impulsionado principalmente pela energia solar e pela gravidade, abrangendo as etapas de evaporação, transpiração, condensação, precipitação, infiltração e escoamento superficial e subterrâneo, além do armazenamento em diferentes compartimentos: oceanos, rios, lagos, aquíferos, geleiras, solo e a atmosfera.
No território brasileiro, as principais entradas correspondem à chuva e às vazões procedentes de outros países na Bacia Amazônica. Parte dessa água é consumida pelas diferentes atividades econômicas, outra parte retorna ao ambiente e o restante sai do território para o Oceano Atlântico ou para países vizinhos na Bacia do Prata, pelos rios Paraguai, Paraná e Uruguai.
Em 2024, o volume de água precipitado sob a forma de chuva no Brasil correspondeu a 13,3 trilhões de m³. A evapotranspiração foi de 8,72 trilhões de m³. Da parcela da chuva restante, uma parte infiltrou no solo, contribuindo para a recarga das reservas de água subterrânea, e outra se tornou escoamento superficial alcançando os rios e córregos. Escoaram em rios no território nacional cerca de 7 trilhões de m³ de água. Desse total, 2,1 trilhões de m³ de água correspondem a contribuição dos rios provenientes de outros países na região Amazônica. Saíram do país por meio dos rios, 6,4 trilhões de m³ de água para o mar e 584 bilhões m³ para outros países.
Monitoramento hidrológico
A disponibilidade de informações confiáveis e em tempo hábil é essencial para a gestão eficiente e sustentável dos recursos hídricos. O monitoramento hidrológico desempenha um papel fundamental ao fornecer, de forma contínua, dados sobre a quantidade e a qualidade das águas superficiais e subterrâneas em todo o território nacional. Essas informações fundamentam a tomada de decisões estratégicas em áreas como abastecimento, irrigação, geração de energia, preservação ambiental e gestão de risco de eventos hidrológicos críticos. Sendo assim, é imprescindível a alocação adequada de recursos humanos e financeiros a fim de viabilizar a operação e o aprimoramento do sistema de monitoramento hidrológico.
Grande parte do monitoramento ocorre por meio de estações pluviométricas (monitoramento de chuvas) e fluviométricas (monitoramento de rios), que registram o volume das chuvas, os níveis dos rios e as vazões. Além de aspectos quantitativos, parâmetros e indicadores de qualidade também são constantemente monitorados com o objetivo de assegurar que as águas estejam em condições adequadas para os diferentes usos, como por exemplo abastecimento público, irrigação, recreação e proteção de ecossistemas.
O monitoramento também se estende às águas subterrâneas e aos reservatórios. Além disso, outras tecnologias, como o sensoriamento remoto por satélite, que permite um acompanhamento abrangente e periódico, têm sido utilizadas no sentido de complementar os métodos convencionais de monitoramento.
No contexto da mudança do clima, o monitoramento hidrológico torna-se ainda mais importante. O aumento na frequência e na intensidade de eventos extremos, como longos períodos de seca e chuvas intensas, afeta diretamente a disponibilidade e a qualidade da água. O acompanhamento contínuo dos recursos hídricos permite prever tendências, mitigar impactos e planejar ações de adaptação, possibilitando maior segurança hídrica para a população, os setores usuários e os ecossistemas.
Rede Hidrometeorológica Nacional
A Rede Hidrometeorológica Nacional (RHN) é um dos principais instrumentos para o monitoramento das condições hidrológicas e meteorológicas no Brasil. A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) é a instituição responsável pela coordenação da RHN, que agrega estações de monitoramento operadas e mantidas pela própria Agência e por diversas instituições parceiras – órgãos estaduais, empresas do setor elétrico, entre outras. Os dados gerados são disponibilizados ao público por meio do Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos (SNIRH). Nem todas as estações existentes no país são vinculadas à RHN, já que há outras instituições públicas, privadas e de pesquisa que operam estações para finalidades específicas.
Atualmente, a operação das estações sob responsabilidade da ANA é realizada pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB), por entidades estaduais — como a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (EPAGRI/SC), o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM/MG) e o Instituto Água e Terra do Paraná (IAT/PR), entre outras — além de empresas privadas contratadas.
O monitoramento hidrológico no Brasil teve origem no século XIX, com registros históricos desde 1855. Entre as décadas de 1900 e 1920, o governo federal passou a tratar o monitoramento como um serviço público, criando instituições dedicadas a essa função. Ao longo do século XX, a coordenação da rede esteve majoritariamente sob responsabilidade de entidades vinculadas ao setor elétrico, até que, com a criação da ANA pela Lei nº 9.984/2000, a responsabilidade pela RHN foi transferida à agência.
Em 2024, a ANA aprovou a Resolução nº 225, que define a Rede Hidrometeorológica Nacional, seus objetivos, princípios e organização. A medida consolidou a RHN como instrumento estratégico para a geração contínua de dados hidrológicos representativos e confiáveis, essenciais ao planejamento e à gestão de recursos hídricos. A norma também estabeleceu princípios como transparência, acesso público, descentralização das ações de monitoramento e melhoria contínua da qualidade das informações, reforçando a importância da RHN para a segurança hídrica e o uso sustentável das águas no país.
Em 2024, a RHN contabilizava mais de 23 mil estações sob responsabilidade de várias entidades. A ANA gerencia diretamente 4.755 estações, sendo: 2.851 pluviométricas e 1.904 estações fluviométricas. Do universo de estações fluviométricas, em 1.423 estações há medição de vazão de água (descarga líquida), em 477 de qualidade da água e em 446 de sedimentos em suspensão (descarga sólida).
O número de estações com monitoramento de qualidade da água operadas diretamente pela ANA diminuiu significativamente em 2024, correspondendo a cerca de 36% do total existente em 2023. A redução é resultado da otimização da RHN, que busca integrar redes institucionais, evitar sobreposições e aprimorar o uso dos recursos. Atualmente, com a consolidação da operação da Rede Nacional de Monitoramento de Qualidade das Águas (RNQA), mantida pelas Unidades da Federação com apoio técnico e financeiro da ANA, por meio dos programas Progestão e Qualiágua, a atuação direta da ANA concentra-se na Região Hidrográfica Amazônica, onde há lacunas significativas de monitoramento pelos estados.
A distribuição geográfica das estações é heterogênea entre as diferentes Regiões Hidrográficas, o que faz com que algumas apresentem maior densidade de monitoramento do que outras. Entre as RHs, a Atlântico Sudeste é a de maior densidade de estações de monitoramento, enquanto a Amazônica registra a menor densidade, com a maior área de cobertura média por estação.
Parte da RHN é composta por estações automáticas, também chamadas de telemétricas ou plataformas de coletas de dados (PCDs), capazes de coletar, armazenar e transmitir dados em tempo real. Esse tipo de estação tem sido largamente utilizado no Brasil, vencendo dificuldades relacionadas ao acesso em algumas regiões e à necessidade de informações em intervalos curtos de tempo para subsidiar a tomada de decisão em eventos críticos. Em 2024, havia 3.848 estações automáticas em operação na RHN (707 sob responsabilidade da ANA e 3.141 de outros órgãos parceiros).
Há também um monitoramento hidrológico específico e obrigatório para o setor de geração de energia hidrelétrica na RHN. Em 2024, o monitoramento em tempo real era efetuado por 2.813 estações de 837 empresas titulares de empreendimentos hidrelétricos para exploração do potencial hidráulico de 1.111 empreendimentos, cuja potência instalada varia entre 1 e 11.233 MW. Como parte das diretrizes regulatórias, os empreendedores também atualizaram os levantamentos topobatimétricos de 145 reservatórios, sendo 135 deles já aprovados pela ANA. A Resolução Conjunta ANA/ANEEL nº 127/2022 estabelece que as Usinas Hidrelétricas despachadas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), ao completar 10 anos em operação comercial, devem realizar a avaliação do assoreamento dos seus reservatórios com a atualização das tabelas Cota x Área x Volume (CAV).
Dado o caráter estratégico para a segurança hídrica, 355 reservatórios de usos múltiplos no Nordeste e no Semiárido são monitorados diariamente por observadores hidrológicos, que transmitem os dados por meio do aplicativo de celular HidroObserva. Esse programa de monitoramento é realizado em parceria com os órgãos gestores de recursos hídricos dos estados de Alagoas, Bahia, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe, e o Serviço Geológico do Brasil (SGB). O Ceará já contava com programa de monitoramento de açudes, com fornecimento regular dos dados coletados.
O acesso aos dados e informações do monitoramento ocorre pelo portal do Sistema de Informações Hidrológicas (HidroWeb), pelo sistema Hidro-Telemetria e pelo aplicativo Hidroweb mobile (sistema Android, iOS ou Navegador), vinculados ao SNIRH.
Rede Hidrometeorológica Nacional de Referência
Nos termos da Resolução ANA nº 225/2024, a Rede Hidrometeorológica Nacional de Referência (RHNR) consiste em um conjunto de estações hidrológicas prioritárias, que atendem a objetivos estratégicos de monitoramento com a finalidade de assegurar a sustentabilidade financeira e operacional, bem como promover sua melhoria contínua.
Essa rede contempla estações que atendem, no mínimo, a um dos seguintes objetivos de monitoramento: monitorar a transferência ou o compartilhamento interestadual ou internacional de recursos hídricos; melhorar a resposta a inundações ou estiagens; monitorar a disponibilidade hídrica em bacias estratégicas; identificar mudanças e tendências de longo prazo no regime hidrológico; apoiar na determinação dos impactos sobre a qualidade da água e subsidiar a regulação do uso de recursos hídricos.
As primeiras estações da RHNR foram implantadas em 2017. Desde então, sua área de abrangência vem sendo ampliada progressivamente, contando atualmente com 424 estações em operação.
Monitoramento Via Satélite
Além do monitoramento convencional, reservatórios e rios de médio e grande porte também são monitorados a partir de dados obtidos por satélite, disponibilizados no portal do monitoramento hidrológico por satélite (HidroSat). Dados de radares altimétricos são usados para determinar o nível da água, enquanto dados de sensores ópticos são utilizados para estimar parâmetros de qualidade da água. Em 2024, havia 77 “estações virtuais” de monitoramento da qualidade da água e 229 de monitoramento de nível.
Planejamento da Rede Hidrometeorológica Nacional
O planejamento da Rede Hidrometeorológica Nacional pela ANA é um processo estratégico e contínuo, voltado à estruturação e ao aprimoramento da rede de monitoramento hidrológico em todo o território nacional. Busca garantir a geração de dados confiáveis e representativos sobre variáveis como nível, vazão e precipitação, essenciais para a gestão dos recursos hídricos, prevenção de eventos extremos, regulação de usos e apoio à formulação de políticas públicas. A definição das áreas prioritárias considera critérios técnicos, operacionais e institucionais, com foco em bacias hidrográficas ou grupos de bacias, e leva em conta demandas regionais, riscos associados e a capacidade das entidades operadoras envolvidas.
Entre as principais demandas de monitoramento estão trechos de rios estratégicos para a gestão de recursos hídricos, áreas vulneráveis a cheias, trechos importantes para regulação e fiscalização (marcos regulatórios, regras de operação de hidrelétricas ou termos de ajustamento de conduta), além de ações previstas em planos de recursos hídricos e bacias consideradas prioritárias.
Em 2024, em decorrência dos eventos de inundação que afetaram o Rio Grande do Sul, os esforços de planejamento da rede hidrológica da ANA foram direcionados para as bacias daquele estado, conforme denominação na RHN (Código DNAEE): Sub-bacia 70 (Rio Pelotas), Sub-bacia 71 (Rio Canoas), Sub-bacias 72 a 79 (Rio Uruguai), Sub-bacia 85 (Rio Jacuí), Sub-bacia 86 (Rio Taquari), Sub-bacia 87 (Lagoa dos Patos) e Sub-bacia 88 (Lagoa Mirim).
Águas Superficiais
A chuva é a grande fonte de água para o continente. Sua quantidade e dinâmica de ocorrência ao longo do ano são variáveis no território. Embora a chuva média anual do Brasil seja estimada em aproximadamente 1.700 mm, pode-se observar menos de 500 mm de chuva na Região Semiárida e mais de 3.000 mm na Região Amazônica, podendo existir inclusive grandes variações dentro de uma mesma bacia. Além da diferença nos quantitativos anuais, cada região possui uma diferente distribuição das chuvas ao longo do ano, desde valores mensais mais constantes a vários meses de estiagem.
As variações de regimes fluviométricos, tanto espaciais como temporais, observadas nas bacias hidrográficas brasileiras, se devem à combinação das variadas condições climáticas, ao armazenamento no solo, às demandas evaporativas e aos graus de declividade dos terrenos. Todavia, o fator predominante é a chuva, de forma que as maiores amplitudes das vazões ocorrem nos períodos úmidos e as menores nos períodos mais secos ou de estiagem.
Em termos de vazão média, dos cerca de 250 mil m³/s de água que escoam pelo território brasileiro, quase 80% se concentram na bacia Amazônica. A vazão de estiagem, representada pela Q95 , varia de 63 mil m³/s na foz da bacia Amazônica a apenas 11,5 mil m³/s nas demais bacias. Embora a Q95 total corresponda a cerca de 30% da vazão média, esse percentual varia bastante no território nacional, podendo superar 40% da vazão média em algumas poucas bacias, enquanto nas bacias do Semiárido a maioria dos rios seca no período de estiagem. Nesses casos, a garantia adequada de oferta de água só pode ser alcançada a partir de infraestruturas de armazenamento ou da transferência de água como reservatórios, adutoras e canais.
A Q95 é obtida pela ordenação de todos os valores disponíveis de uma série de vazões em uma estação fluviométrica, sendo seu valor o que limita as 5% menores observações. Assim, espera-se que em 95% do tempo a vazão no rio seja maior ou igual à Q95. Vazões de estiagem como a Q95 podem ser estimadas para um trecho de rio através de modelos de regionalização de vazões, a partir de dados medidos em estações fluviométricas, e são informações básicas utilizadas na definição da disponibilidade hídrica.
Tendo em vista as flutuações naturais dos regimes de vazão, a gestão de recursos hídricos traz o conceito de disponibilidade hídrica superficial, que é uma vazão estabelecida como referência para orientar suas ações. Seu valor é definido de forma que haja um nível alto de garantia da oferta de água para os diversos usos, sendo normalmente baseada em vazões características de estiagem e em vazões garantidas por reservatórios artificiais, conforme suas regras de operação.
Com o objetivo de garantir o uso múltiplo das águas, no processo de gestão, podem ser previstos limitadores percentuais ou absolutos para retiradas dessas quantidades de referência, viabilizando garantias também para usos não consuntivos como geração de energia, navegação, recreação e manutenção de comunidades aquáticas.
Cada Unidade da Federação (UF) possui autonomia para estabelecimento da disponibilidade hídrica em rios sob seu domínio. A base nacional de referência apresenta informações de disponibilidade hídrica por trecho de rio estimadas a partir da Q95 – referência para a gestão dos rios de domínio da União. Essa base incorpora atualmente a interferência de 1060 reservatórios que podem ampliar a oferta, bem como alterar o fluxo a jusante do rio. A influência de outras infraestruturas como adutoras e canais não é considerada, a não ser transferências entre alguns sistemas de reservatórios como as do Sistema Cantareira (SP), do complexo Lages-Light (RJ) e do sistema Pacoti-Riachão (CE). A transposição de águas do Projeto de Integração do São Francisco com as Bacias do Nordeste Setentrional (PISF) ainda não está contemplada nessa versão da base.
Comportamento Recente das Chuvas e Vazões
Devido à sua vasta extensão territorial, o Brasil possui uma hidrologia complexa, diretamente influenciada por ampla variedade de sistemas atmosféricos e fenômenos climáticos de grande escala, como El Niño e La Niña. A análise dos dados de precipitação e vazão por ano hidrológico , ao longo da última década (2015-2024), revela um panorama de contrastes marcantes, caracterizado por ocorrências, tanto de secas severas quanto de eventos extremos de cheia.
De modo geral, em comparação com o passado, há a prevalência de comportamento mais seco na última década, marcada por precipitações e vazões anuais abaixo das médias históricas em grande parte do território brasileiro. Por outro lado, foram observados aumentos importantes nas chuvas e vazões em algumas Regiões Hidrográficas (RH), como nas RHs Paraná e Uruguai, em 2016, nas RHs Atlântico Leste, São Francisco e Atlânticos Nordeste Ocidental e Oriental, em 2022, e nas RHs Uruguai e Atlântico Sul, em 2024. Apenas o ano hidrológico de 2023 apresentou condições que podem ser consideradas próximas à média histórica, principalmente com relação às chuvas, em boa parte do país.
É importante destacar que a relação entre precipitação e vazão não é linear e pode variar significativamente entre regiões e até entre eventos. Um pequeno déficit de chuva pode provocar uma redução desproporcional nas vazões — fenômeno conhecido como efeito de realce hidrológico. De outra maneira, aumentos modestos de precipitação, sobretudo após períodos úmidos, podem gerar aumentos expressivos nas vazões, devido à saturação do solo e à redução da infiltração. Isso ocorre porque a resposta hidrológica não depende apenas da quantidade de chuva, mas também de fatores como temperatura, tipo, uso e cobertura do solo, umidade antecedente do solo e das retiradas para os diversos usos, como captações para irrigação e abastecimento.
Entre 2015 e 2021, destacaram-se reduções significativas de chuva e, principalmente de vazão, em grande parte do território, em especial na porção centro-leste do país. Em diversas RHs , as vazões apresentaram reduções próximas ou superiores a 50% da média histórica, destacando-se, principalmente, as RHs Atlântico Nordeste Oriental, Uruguai, Atlântico Leste, Atlântico Sudeste, Parnaíba e São Francisco.
A Região Nordeste, historicamente dependente de reservatórios, enfrentou, entre 2015 e 2017, um dos períodos mais críticos de sua história recente, caracterizado por precipitações bem abaixo da média e tempos de retorno de seca muito altos. Nas RHs Atlântico Nordeste Oriental, Atlântico Leste e São Francisco foram observadas reduções na precipitação próximas ou superiores a 25% em relação à média, com diversas estações registrando reduções superiores a 75% e tempos de retorno maiores que 100 anos. Em relação às vazões, as reduções em comparação à média foram, em geral, superiores a 50%, chegando a ultrapassar 75% em algumas estações localizadas principalmente na porção norte da RH São Francisco e na RH Atlântico Nordeste Oriental, também associadas a tempos de retorno superiores a 100 anos.
Ainda que algumas Regiões Hidrográficas tenham apresentado aumento da precipitação em relação à média histórica desde 2021, como as RHs Atlântico Leste (22%, em 2022, e 16%, em 2023), Atlântico Nordeste Oriental (34%, em 2022, e 14%, em 2023), Parnaíba (25%, em 2022, e 12%, em 2023) e São Francisco (28%, em 2022), as vazões nem sempre acompanharam esse comportamento. Na RH Atlântico Nordeste Oriental, por exemplo, houve redução das vazões em relação à média de 17% em 2022 e de 22% em 2023.
Na Região Hidrográfica do São Francisco, que já havia registrado, em boa parte das estações de monitoramento de chuva e vazão, reduções maiores que 25% em relação às médias até 2020, a situação se agravou. Após uma breve recuperação em 2022, as chuvas e vazões voltaram a cair em 2024, atingindo, novamente, em diversas estações, reduções entre 25% e 50%, o que representou uma redução média na RH de 9,2% na precipitação e de 40% na vazão média. Em 2024, a maioria das estações de vazão apresentaram reduções variando entre 25% e 50% em relação à média histórica, com registros de reduções superiores a 50% no Alto São Francisco e próximas a 100% no Baixo São Francisco.
A crise hídrica nacional de 2020-2021 atingiu as regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, sendo caracterizada como a pior seca desde 1930, com volumes de chuva extremamente baixos e severos impactos, especialmente para a geração hidrelétrica. Em 2021, a ANA emitiu a primeira Declaração de Situação Crítica de Escassez Quantitativa de Recursos Hídricos para a RH do Paraná, devido às chuvas persistentemente abaixo da média que impactaram significativamente os volumes dos reservatórios (os menores dos últimos 23 anos até aquela data), gerando riscos relevantes para os usos múltiplos da água, com destaque para a geração hidrelétrica e a navegação na hidrovia Tietê-Paraná. De modo geral, em 2021, foram observadas nas estações reduções, em relação à média histórica, entre 25% e 50% na chuva e entre 50% e 75% na vazão, o que foi acompanhado de uma grande quantidade de estações apresentando chuvas e vazões com tempos de retorno superiores a 50 anos.
Anteriormente, entre 2014 e 2017, o Sudeste enfrentou o que havia sido considerada a pior seca em 100 anos até aquela data, afetando os estados de São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo, o que provocou um colapso nos níveis dos reservatórios, principalmente no Sistema Cantareira.
Desde 2018, a Região Hidrográfica do Paraguai tem observado uma queda contínua nas precipitações e vazões em relação à média histórica. Em 2024, a redução nas chuvas na região foi de 28% e nas vazões de 44%. Boa parte das estações fluviométricas apresentaram reduções entre 25% e 50% nas chuvas e entre 50% e 75% nas vazões, em relação à média histórica, com tempos de retorno das chuvas e vazões que superam os 50 anos, sendo superiores a 100 anos em algumas dessas estações. Esse cenário hidrológico impactou gravemente o Pantanal, culminando na Declaração de Situação Crítica de Escassez Quantitativa dos Recursos Hídricos na Região Hidrográfica do Alto Paraguai emitida pela ANA em 2024.
Entre 2017 e 2022, a RH Amazônica apresentou chuvas e vazões acima da média histórica. Em 2022, a chuva média nesta RH foi 19,1% acima da média histórica, enquanto as vazões ficaram 10% acima. Na porção mais ao norte da RH Amazônica, na bacia do Rio Negro, foram observadas, em alguns trechos, vazões superiores a 100% da média, com tempos de retorno superiores a 100 anos, causadas por grandes chuvas acumuladas, acentuadas pelo fenômeno La Niña. Em 2021, Manaus registrou recorde de cheia (29,98 m no Rio Negro), afetando cidades ribeirinhas e a logística regional. A partir de 2023, a RH Amazônica registrou redução acentuada na precipitação. Em 2024, foram observadas chuvas (10%) e vazões (20%) inferiores às médias históricas. As regiões dos rios Purus, Acre, Madeira, Tapajós, Xingu e Iriri registraram níveis historicamente baixos, com reduções na vazão superiores a 50% e tempos de retorno superiores a 100 anos, em algumas estações de monitoramento, com graves impactos no transporte fluvial e no abastecimento. Em decorrência desse cenário hidrológico em vários rios da Região Norte, a partir do segundo semestre de 2023 até 2024, foram emitidas 5 Declarações de Situação Crítica de Escassez Quantitativa de Recursos Hídricos em algumas bacias da região.
No extremo oposto do país, observou-se aumento expressivo de chuva e vazão nas RHs Uruguai e Atlântico Sul, principalmente em 2024. A RH Uruguai registrou, em 2024, precipitação 56% acima de sua média histórica, sendo o maior valor observado da série. A vazão média da RH, em 2024, apresentou um aumento de 102% em relação à média histórica.
Na RH Atlântico Sul foram atingidos níveis recordes, com vazão 107% e precipitação 53% acima das respectivas médias históricas na região, culminando nas enchentes históricas de maio de 2024 no Rio Grande do Sul, que afetaram mais de 90% dos municípios do estado. Nessas regiões, incluindo a RH Uruguai, foram observadas estações com registros de precipitações até 130% maiores do que a média histórica, com tempo de retorno superiores a 100 anos.
Na RH Paraná observou-se tendência de redução nas vazões desde 2017, com destaque para os anos de 2020 a 2022 e 2024, em que a vazão na RH foi, respectivamente, 39%, 41%, 23% inferior à média. Em 2024, a maior parte das estações apresentou reduções em relação à média entre 25% e 50% e tempos de retorno entre 20 e 50 anos.
Reservação de Água
As variações de precipitação interanuais costumam ser maiores em regiões como o Semiárido do que no Sudeste do Brasil, por exemplo. Para amenizar os consequentes impactos da flutuação das vazões ao longo do tempo, são construídas obras de infraestrutura hídrica, com destaque para os reservatórios artificiais. Visando garantir a segurança hídrica em sua área de influência, eles potencializam a disponibilidade de água superficial, armazenando água nos períodos úmidos e ofertando-a ao longo do tempo, sobretudo nos períodos de estiagem.
A Base de Dados de Massas d’Água da ANA, publicada em 2020, compreende cerca de 240 mil massas d’água mapeadas no país, das quais 3.661 são reservatórios artificiais com capacidade total de armazenamento totalizando 630,2 bilhões de m³, sendo 92,7% desse volume representado pelos reservatórios para geração de energia hidrelétrica. A maior capacidade de armazenamento de água encontra-se nas UGRHs da Bacia do Paraná (Paraná, Iguaçu, Paranapanema, Grande e Paranaíba), Tocantins-Araguaia e São Francisco, totalizando cerca de 266 bilhões de m³.
Desde 2013, a ANA, em colaboração com diversas instituições parceiras, vem realizando o monitoramento de reservatórios, usinas hidrelétricas e estações de bombeamento, através do Sistema de Acompanhamento de Reservatórios (SAR). Em 2024, constavam no Sistema 714 infraestruturas hídricas, das quais 162 correspondem a infraestruturas que fazem parte do Sistema Interligado Nacional (SIN), que abrangem os maiores reservatórios de acumulação de água do país.
Além dos reservatórios do SIN, o SAR também abriga outros dois módulos: Nordeste e Semiárido e Outros Sistemas Hídricos. No módulo Nordeste e Semiárido, são acompanhados 542 reservatórios distribuídos na Região Nordeste e em Minas Gerais, com capacidade de reservação de 34.973,72 hm³. No módulo Outros Sistemas Hídricos, são acompanhados reservatórios que compõem sistemas de abastecimento de São Paulo (Sistema Cantareira), de Belo Horizonte (Sistema Paraopeba) e do Distrito Federal.
Impacto das chuvas e vazões nos reservatórios
Os volumes de chuva nos períodos úmidos nos anos de 2015 a 2017 foram significativamente abaixo da média, resultando em reduzidas recargas dos reservatórios do SIN. Com os reservatórios deplecionados, o volume útil do SIN era de cerca de 30% em 2017. Em 2018, observou-se uma recuperação parcial dos volumes, mas em 2019 os volumes dos reservatórios voltaram a cair, atingindo cerca de 30% do volume útil em dezembro — patamar que se manteve em 2020.
Em 2021, iniciou-se uma trajetória de recuperação dos volumes do SIN, que alcançaram 41% no fim daquele ano. Essa recuperação foi resultado da melhora nas condições hidrológicas nas bacias dos rios Paraná, Tocantins e São Francisco, e das medidas adotadas no âmbito do Plano de Contingência para a Recuperação dos Reservatórios do SIN. Essa tendência de aumento dos volumes foi mantida em 2022, quando o SIN encerrou o ano com volume útil de aproximadamente 59%.
Em 2023, houve uma pequena redução em relação a 2022, com os reservatórios do SIN encerrando o ano com cerca de 55% de volume útil . Tendência semelhante foi verificada em dezembro de 2024, quando o armazenamento atingiu cerca de 53% do volume útil, ligeiramente inferior ao registrado no mesmo período do ano anterior.
No Nordeste, região que depende grandemente da água armazenada em reservatórios, houve recuperação gradual dos volumes no período de 2017 a 2024. No início de 2025, o volume armazenado pelo reservatório equivalente do Nordeste era de 53,2%, aproximadamente 12 pontos percentuais acima do observado no início de 2024, e o maior observado desde 2017.
Águas Subterrâneas
As águas subterrâneas desempenham importante papel como fonte de água para os diversos usos. A grande capacidade de armazenamento e a resiliência a longos períodos de estiagem fazem dos recursos hídricos subterrâneos uma alternativa para o enfrentamento de períodos de escassez hídrica, mostrando-se menos suscetíveis a variações climáticas em relação às águas superficiais.
Além de abastecer diretamente populações e atividades produtivas, a contribuição de água dos aquíferos tem papel fundamental na regulação do fluxo de base da maior parte dos rios em território nacional. As extrações de águas subterrâneas, no entanto, podem reduzir esse fluxo e impactar as vazões dos rios. Por isso, a disponibilidade hídrica subterrânea considera apenas uma parcela das reservas renováveis dos aquíferos (parcela da recarga), sendo o restante destinado à manutenção das vazões dos rios.
ALIMENTAM OS RIOS
a zona freática
A Recarga Potencial Direta (RPD) e a Reserva Potencial Explotável (RPE) são indicadores usados para avaliar a disponibilidade de água subterrânea renovável. A RPD corresponde à parcela da chuva que infiltra e efetivamente chega aos aquíferos livres, constituindo, assim, a reserva renovável ou reguladora. Já a RPE é a porção da RPD que poderá ser explotada de forma sustentável, de modo a não interferir nas vazões superficiais mínimas, referenciais para outorga.
A disponibilidade de água subterrânea no Brasil, dada pela RPE, é estimada em cerca de 13.000 m³/s. De modo semelhante às águas superficiais, sua distribuição pelo território nacional não é uniforme e as características hidrogeológicas e de produtividade dos aquíferos são variáveis, ocorrendo regiões de escassez e outras com relativa abundância.
Para quantificar o quanto da disponibilidade hídrica subterrânea já está sendo consumida no Brasil, é preciso conhecer os volumes extraídos pelas captações subterrâneas ou poços. Em 2020, estimou-se a existência de 2,6 milhões de poços no Brasil, estimativa ampliada para 3,5 milhões de poços em 2024. No entanto, grande parte desses poços não está regularizada ou registrada nos sistemas oficiais, o que dificulta a obtenção de informações para o conhecimento da demanda por águas subterrâneas no país.
Até dezembro de 2024, o Sistema de Informações de Águas Subterrâneas (SIAGAS) do Serviço Geológico do Brasil, contabilizava 381.626 registros — entre poços tubulares, poços rasos, cacimbas, nascentes e outras interferências, um aumento de 15,5% em comparação a 2020. Contudo, esse crescimento reflete a expansão da base de dados do sistema e não implica, necessariamente, que o número de poços no país tenha crescido na mesma proporção. Atualmente, os poços cadastrados no SIAGAS representam cerca de 10,9% da estimativa total de poços.
Já o Cadastro Nacional de Usuários de Recursos Hídricos (CNARH), coordenado pela ANA e que reúne apenas os usos regularizados, registrava 211.100 captações subterrâneas no final de 2024 — cerca 6% da estimativa nacional de poços.
A retirada total de água subterrânea no Brasil é atualmente estimada em 3.397,7 m³/s, o que corresponde a cerca de 26% da disponibilidade hídrica subterrânea (RPE). Ainda assim, embora o percentual pareça confortável no panorama nacional, ele representa apenas uma média, e localmente a situação pode ser bem diferente.
Monitoramento das Águas Subterrâneas
O monitoramento de águas subterrâneas no Brasil é ainda incipiente quando comparado ao das águas superficiais. Alguns estados como São Paulo, Ceará, Distrito Federal e Minas Gerais operam redes próprias, enquanto, nacionalmente, o SGB opera a Rede Integrada de Monitoramento das Águas Subterrâneas (RIMAS). No fim de 2024, a RIMAS contava com 489 poços de monitoramento dos níveis d´água subterrânea, com alerta de qualidade das águas subterrâneas, distribuídos em 25 aquíferos brasileiros, em 22 Unidades da Federação (UFs).
Em 2020, o SGB e a ANA iniciaram uma cooperação para o Monitoramento Integrado das Águas Superficiais e Subterrâneas. Essa parceria inclui o planejamento, a instalação e a operação conjunta de poços de monitoramento piezométrico, integrando parte da RIMAS com a RHN, a fim de otimizar o uso dos recursos públicos no monitoramento dos recursos hídricos. A iniciativa tem sua atenção voltada para os aquíferos com contribuição relevante para o fluxo de base dos rios, como por exemplo o Sistema Aquífero Urucuia, Parecis e Bauru-Caiuá.
Em 2024, sete poços de monitoramento piezométrico automático foram instalados no Sistema Aquífero Bauru-Caiuá. Esses poços integram a Rede de Monitoramento de Águas Subterrâneas da Bacia do Rio Paranapanema, e foram implantados por meio de cooperação entre a ANA, o SGB e os órgãos gestores de recursos hídricos de São Paulo, Paraná e o Comitê da Bacia Hidrográfica do Paranapanema (CBH Paranapanema).
Além da rede nacional, algumas UFs também realizam o monitoramento do nível das águas subterrâneas. São Paulo possui uma rede com 96 poços, Minas Gerais com 29, Ceará com 523 e o Distrito Federal com 84 poços. O estado do Rio Grande do Norte, por meio do Instituto de Gestão das Águas do Rio Grande do Norte (IGARN), também realizou o monitoramento de águas subterrâneas em algumas regiões entre 2001 e 2018.
Considerando as diversas redes existentes, foram inventariados 1.221 poços de monitoramento de nível de águas subterrâneas, com séries de dados de até 15 anos, no caso da RIMAS, e de 24 anos para o Ceará.
A maior parte dos aquíferos apresenta uma densidade de poços de monitoramento (PM) abaixo da adequada para a definição de seus níveis no passado, considerando este um dos objetivos importantes do monitoramento regional. As maiores densidades, dadas por menores áreas médias de cobertura por PM, se encontram em UGRHs de pequena extensão, como a do Córrego da Mata (38 km²/PM) e Bacias Litorâneas Estaduais do CE (261 km²/PM) devido aos PMs da rede do Ceará. A densidade geral do país é de 6.970 km²/PM.
Em algumas regiões do país, os mananciais subterrâneos — sobretudo os aquíferos rasos ou aflorantes — constituem reservas estratégicas em períodos de estiagem ou em locais com comprometimento da qualidade da água superficial, garantindo acesso relativamente fácil à água para consumo humano. Uma vez que esses mananciais estão diretamente conectados com os rios, é necessário melhorar o conhecimento da interdependência entre os fluxos superficiais e subterrâneos, a fim de subsidiar ações voltadas à implementação da gestão integrada.
Nesse sentido, desde 2001, a ANA vem conduzindo estudos hidrogeológicos, em apoio aos estados, entre os quais se destaca o de avaliação da interdependência entre os fluxos superficiais e subterrâneos, denominado de Hot Spots de Gestão Integrada Rio-Aquífero, iniciado em 2021. O objetivo é identificar as porções das bacias onde os rios têm maior dependência dos aquíferos para a manutenção de suas vazões, tornando essas regiões prioritárias para implementação da gestão integrada rio/aquífero. Atualmente estão disponíveis resultados para as UGRHs Paranapanema, Grande e São Francisco. Análises para as UGRHs Parnaíba, Paranaíba, Tapajós, Xingu e Madeira estão em fase de finalização.
Outro estudo em desenvolvimento pela ANA está relacionado ao comportamento do nível d’água subterrânea de alguns dos principais sistemas aquíferos livres monitorados no país — Sistemas Aquíferos Urucuia, Bauru-Caiuá, Guarani e Parecis — a partir de agrupamentos das curvas de níveis d’água. Esses mananciais subterrâneos possuem abrangência regional e são importantes fontes de água para irrigação e abastecimento público. Além disso, desempenham papel fundamental na manutenção da vazão nos rios, especialmente durante os períodos de estiagem.
A abordagem utilizada permitiu identificar características hidrogeológicas específicas de cada região, relacionadas tanto às condições climáticas quanto ao uso e ocupação do solo. De forma geral, observou-se que os níveis de água variam conforme as estações do ano: sobem durante o período de chuvas (recarga) e descem na época de seca (estiagem).
